Estudo sobre o grupo Black Eyed Peas mostra como o hip-hop sai dos guetos com elementos do pop

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Victor Francisco Ferreira / Agência USP

Com a incorporação do rap e do hip-hop pela grande indústria musical, boa parte da essência do gênero dá lugar a elementos de outros segmentos e também da cultura pop. Daí surgem outros estilos, que misturam o rap ao pop, o rock ou à música eletrônica, desvinculando-o de seu contexto original. Um estudo realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP buscou identificar quais os elementos do hip-hop ainda fazem parte da banda norte-americana Black Eyed Peas, que hoje pode ser classificada genericamente como um grupo pop.

A professora Marcela Marques Fortini, autora do estudo, conta que assistiu e analisou videoclipes e apresentações da banda. Para ela, o Black Eyed Peas foge um pouco do estereótipo da banda de hip-hop. “Dois integrantes não são negros, o Taboo [Jaime Luis Gomez] e a Fergie [Stacy Ann Ferguson]. Porém, no hip-hop, mais importante que a questão racial é a condição social”, afirma. Taboo é californiano de família mexicana e Fergie vem de família católica. Além deles, a banda conta com o negro Will.I.Am [William James Adam Jr] e com Apl.de.ap [Allan Pineda Lindo Jr], negro e nascido nas Filipinas. “Todos vêm de grupos sociais que não se encaixam no padrão norte-americano, do branco protestante”, explica Marcela.

Banda “hollywoodiana”

A pesquisadora analisou uma coletânea de videoclipes que trazia canções dos três primeiros álbuns. Segundo ela, foi possível perceber uma grande diferença entre a ideia de hip-hop como algo restrito ao gueto. “Os videoclipes são muito bem produzidos. Não deixam a desejar a clipes de bandas pop”, conta. Para ela, isso também acontece pois a banda foi formada em Los Angeles, na Califórnia, local onde se encontra Hollywood e grande parte de seus astros e por ser o cinema um dos principais meios difusores da cultura de massa nos Estados Unidos.

“Não apenas na narrativa (por meio das canções), mas também no mundo das imagens (pelos videoclipes, que são quase produções hollywoodianas), o hip-hop vai ganhando espaço e firmando seu lugar dentro da cultura nos EUA”, escreve Marcela em trecho do seu trabalho, que foi orientado pelo professor Lynn Mário Trindade Menezes de Souza, do Departamento de Letras Modernas da FFLCH.

Ela diz que vários aspectos da cultura negra estão presentes no grupo, como a música e a divisão de papéis masculinos e femininos. Porém, o principal é o poder da palavra. “O rap surgiu como narrativas orais, e a cultura africana se baseia muito nelas. É a partir da palavra que se inicia uma manifestação”, afirma. Além disso, as apresentações ao vivo são mais do que concertos musicais. “Os shows são performáticos, envolvem participação da plateia. Isso é resultado de um conceito chamado antífona, que diz que não há obra auto-suficiente”. Um show do Black Eyed Peas envolve música, estética e atitude que lembram os rituais religiosos, com todos os presentes envolvidos e participantes na apresentação.

Black Eyed Peas

“A banda começou como um grupo chamado Atban Klann, também conhecido como Tribal Nations, formado por Will.I.Am e Apl.de.ap, ambos membros atuais do Black Eyed Peas”, conta Marcela. O Atban Klann ainda contava com outros três integrantes, mas foi dissolvido em 1995, quando foi formado o Black Eyed Peas, que buscava ser diferente do gangsta rap, que fazia sucesso no início dos anos 1990 falando sobre as condições precárias e violentas dos guetos norte-americanos. Além de Will.I.Am e Apl.de.ap, o grupo passou a contar com Taboo na formação principal e com a cantora Kim Hill nos backing vocals. Foram lançados dois álbuns: Behind the front (1998) e Bridging the gap (2000).

Em 2003 foi lançado o álbum Elephunk, já com Fergie sendo a voz feminina do grupo no lugar de Kim Hill e assumindo um papel muito mais destacado que o de sua antecessora. “Foi a partir da entrada da Fergie que o grupo ganhou visibilidade”, conta Marcela. É deste disco a primeira música do Black Eyed Peas a atingir o primeiro lugar nas paradas musicais, “Where is the love?”. Ainda foram lançados os álbuns Monkey Business (2006), The E.N.D. (2009) e The Beggining (2010), que também fizeram muito sucesso.

A escolha do grupo

A ideia do trabalho surgiu do blues, gênero da cultura negra norte-americana. “Me interessei pela cultura negra e sua história, mas queria analisar algo mais contemporâneo que o blues. Por isso escolhi o hip-hop”, afirma a professora. Ela conta que, para escolher qual artista seria analisado, avaliou vários nomes. Alguns inclusive estão presentes no trabalho como parâmetro de comparação com o Black Eyed Peas. É o caso de Eminem, Snoop Dogg, Geto Boys, Grandmaster Flash, Eric B. & Rakim e outros.

Mais informações: email mmfortini@ig.com.br

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