Professor da FFLCH conta história da formação da Cidade Universitária

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A Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira, o campus USP na capital, já passou por diversas mudanças desde sua construção, encravada em uma extensa área no bairro do Butantã.

O professor Shozo Motoyama, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, especialista, entre outros assuntos, na história da USP, é quem conta um pouco desta história.

Origens

Baseando-se no projeto alemão de universidade moderna, com foco em pesquisa e integração dos cursos, a “elite intelectual” paulista – entre cientistas, políticos e jornalistas – começou a pensar, na década de 1930, na fundação de uma cidade universitária. O projeto era não só integrar os já existentes cursos daquele período, como a Escola Politécnica, Faculdade de Medicina e Faculdade de Direito, por exemplo, mas também garantir atenção à pesquisa e ao desenvolvimento do país.

A ideia era fazer com que todos os alunos tivessem um currículo básico para seguir, “compartilhassem do mesmo caldo cultural”, como explica Shozo Motoyama. Segundo o professor, que é autor do livro USP 70 anos: Imagens de uma história vivida (Edusp, 2006), vale a pena lembrar o contexto histórico em que a USP foi idealizada: “um período em que São Paulo perdia a hegemonia política com a Revolução de 1930, que ascendeu Getúlio Vargas ao poder”, explica. A reação se deu pelas armas em 1932 – na Revolução Constitucionalista –  e não deu certo. Então um projeto de hegemonia cultural, além da economia embalada pela exportação de café, poderia ser a solução para o problema dos paulistas.

Construção da Cidade Universitária

A Universidade de São Paulo é oficialmente fundada em 23 de janeiro de 1934 através do decreto 6.283, assinado pelo então governador de São Paulo, personalidade que nomeia a “Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira”. Junto com a USP, nasce a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), justamente para cumprir esse papel de integração e desenvolvimento do conhecimento em diversas áreas. Além dos cursos de filosofia e letras, a Faculdade também abrigava os núcleos de formação que deram origem aos cursos de física, matemática, química e ciências biológicas atuais.

Pouco tempo depois é escolhido o terreno da Cidade Universitária, num total de 200 alqueires paulistas*, metade do planejado inicialmente, mas o suficiente para consolidação do projeto. Já na década de 1940 começa timidamente um processo de transferência de alguns departamentos para dentro do novo campus. A principal motivação para isso era a possibilidade de expansão dos laboratórios que já tinham uma certa limitação de espaço. Foi o caso da Escola Politécnica, até então situada na Avenida Tiradentes. Lá havia um laboratório de estudos sobre resistências de materiais, que depois de deslocado para a Cidade Universitária, pôde se expandir e se tornar um órgão independente na USP, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

Depois de algumas poucas transferências na década de 1940, o processo foi retomado na primeira metade da década de 1960, período de maior investimento na infra-estrutura da Universidade. Já no ano de 1970, a maioria dos cursos de exatas e biológicas que estavam divididos nos prédios da Maria Antonia – hoje o Centro Universitário Maria Antonia, administrado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP – e da Alameda Glete mudaram-se em definitivo para a Cidade Universitária e se tornaram unidades independentes da FFCL, que pouco depois foi extinta e desmembrada.

Além do processo de transferência das faculdades e institutos existentes, outras unidades são criadas na década de 1940. A Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas (FCEA), que depois se transforma na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), criada em 1946, e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), criada em 1948. Neste mesmo ano começa a interiorização da USP, com a criação do curso de Odontologia em Bauru. Em 1950 é fundada a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), seguida da Escola de Enfermagem nesta mesma cidade, em 1951, e a Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) , em 1952.

* Aproximadamente 4.700.000 m²

Migração

O professor Shozo Motoyama, que ainda era aluno na década de 1960 quando seu curso (Física) começou a transferir alguns departamentos para o Butantã, diz que o processo de mudança foi tranquilo. “A física veio pela necessidade de espaço por causa das grandes máquinas, principalmente na área de pesquisa nuclear. Em 1964, praticamente todos os laboratórios já estavam na Cidade Universitária”, afirma.

Num período de turbulência política e ditadura militar, o local onde seriam ministradas as aulas tornou-se algo secundário naquela época. A transferência ainda propiciaria o aumento no número de vagas nos cursos e maior acessibilidade ao ensino superior.

O período da ditadura militar é encarado como um período de repressão, perseguições e prisões no ambiente estudantil, do qual a USP não ficou de fora. O Conjunto Residencial da USP (Crusp) chegou até a ser fechado pelo regime. No entanto, este também foi um dos períodos de maior investimento no Campus. Segundo Motoyama, “proporcionalmente falando, o governo Geisel (1974-1979) foi o que mais investiu em pesquisa na USP até hoje.” Também foi o período onde a maioria dos prédios ficaram prontos e possibilitaram a mudança definitiva dos cursos para a Cidade Universitária, como a Química, Física e a Poli.

Em contrapartida, como explica, no período militar o ensino básico e médio foi praticamente deixado de lado, criando esta enorme lacuna que existe hoje entre o ensino médio e superior no país, problema ainda não solucionado.

Unidades externas

Fora da Cidade Universitária, algumas unidades estão até hoje onde começaram. O principal caso é o da Faculdade de Direito (FD), fundada em 1837 no Largo São Francisco. A instituição mais antiga da USP, que alegou na época estar satisfeita com suas instalações, permanece até hoje com a sua grade de disciplinas integralmente ministrada no centro da cidade.

A Faculdade de Medicina (FMUSP) também contava com uma boa estrutura, fundamentada principalmente pelo Hospital das Clínicas (HC). Apesar disso, uma parte de suas aulas teóricas e do ciclo básico do curso são ministradas em unidades dentro da campus do Butantã, principalmente no Instituto de Ciências Biomédicas, o ICB. Na Avenida  Doutor Arnaldo ainda são ministrados os cursos de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, também seguindo esta mesma lógica da medicina.

A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) não se tranferiu por motivos óbvios: seria impossível reproduzir uma fazenda nas condições da existente em Piracicaba na Cidade Universitária e não havia motivo para a tranferência, visto que mais tarde tornou-se um projeto eficiente a interiorização da USP pelo restante do Estado de São Paulo. 

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