Selo verde, criado por Laboratório da Poli, pode incentivar produção de sapato sustentável

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Valéria Dias / Agência USP de Notícias

Ainda neste primeiro semestre de 2012, o Laboratório de Sustentabilidade (Lassu) do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica (Poli) da USP, em parceria com a Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos (Assintecal), deverá instituir um “selo verde” para as empresas calçadistas engajadas no conceito de sustentabilidade. O conceito de calçado sustentável pode ser aplicado a um produto que, ao ser fabricado, respeite os quatro pilares que formam a sustentabilidade (aspectos ambientais, econômicos, sociais e culturais) em toda a sua cadeia produtiva.

Segundo a professora Tereza Cristina Carvalho, coordenadora do LASSU, para que uma empresa possa receber o selo, deverá apresentar processos sustentáveis nos quatro pilares da sustentabilidade. No aspecto econômico, um fator importante é o uso racional de matérias-primas, economia de água e energia, além de aspectos ligados a produtividade, tanto de colaboradores como das próprias máquinas. No ambiental, trata-se da não utilização de substâncias tóxicas, como o cromo, no amaciamento do couro, optando, por exemplo, pelo uso de tanino. Já o lado social traz questões como programas de saúde preventiva, segurança no trabalho, concessão de benefícios trabalhistas adicionais aos previstos por lei, como bolsas de estudo e incentivos à educação, além do não uso de mão de obra infantil. O aspecto cultural envolve questões como o quanto a empresa interage de forma positiva com a comunidade, desenvolvendo ações para preservar a cultura local.

Em um estudo realizado por pesquisadores da Poli e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, em parceria com a Assintecal, foi constatado que, apesar da aparência semelhante ao calçado comum, o preço do sapato sustentável seria, em média, de 20% a 25% superior aos modelos tradicionais, e este fator parece ser um empecilho para o consumidor adquiri-lo. Os resultados da pesquisa foram apresentados na Assintecal no último dia 25 de janeiro.

Como soluções para a questão, os pesquisadores sugerem um trabalho de conscientização junto aos consumidores finais e a realização de parcerias com instituições com peso na área de sustentabilidade, como bancos que apóiem empresas com projetos sustentáveis. A concessão do “selo verde” será parte da estratégia.

A professora explica que em setembro de 2011 foi submetido pela Assintecal, junto ao MIT L-Lab (Programa de Liderança em Sustentabilidade), um projeto descrevendo os desafios de implantação e adoção do “selo verde”. “Projetos como este são enviados ao MIT por instituições de ensino e por empresas de várias partes do mundo e os alunos podem escolher aqueles que mais lhe agradam. Isso oferece a oportunidade de melhor aplicação de conceitos de sustentabilidade”, destaca.

“Obtivemos a aprovação em outubro. O projeto foi selecionado porque é um exemplo claro de como a sustentabilidade pode afetar todo um setor da indústria e beneficiá-la, especialmente, no mercado internacional. Neste caso, espera-se um grande impacto na indústria calçadista do Brasil em todos os aspectos, não somente no ambiental. Trabalhar com esta questão representa uma experiência muito importante para o futuro dos alunos que participaram do projeto”, diz.

Estudando o setor

Os alunos Sandra Chow, Jenny Xu, John Taveras, e Tomoki Kumada, do MIT, desembarcaram no Brasil na segunda semana de janeiro com o objetivo de estudar o mercado calçadista nacional, sob a orientação da professora Tereza. A ideia era avaliar qual o impacto de ações de sustentabilidade em toda a cadeia de valor do setor calçadista, desde insumos, montagem até o produto final. Eles visitaram cerca de 12 empresas calçadistas, em cidades como São Paulo, Cerquilho, Sorocaba, no estado de São Paulo, e também em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul. São empresas que produzem insumos, solventes, botões, fivelas até os montadores do produto final.

A professora conta que, durante a realização da pesquisa, foi observado que o conceito de sapato sustentável é variável: desde o “eco shoes”, fabricado por meio de processos ecologicamente corretos, até o “sapato biodegradável”, que após ser enterrado e sofrer a ação de micro-organismos, é transformado em adubo em cerca de cinco anos. “Outra vantagem do selo da Assintecal será padronizar este conceito”, explica.

Selo verde

De acordo com os pesquisadores do MIT, para mudar o comportamento das pessoas e convencê-las sobre os benefícios da compra de um sapato sustentável, o ideal é que ocorra um processo gradual de educação. Como comparação de como isso poderia ser feito, eles citam que os usuários de computador, ao se depararem com a marca Intel Inside, imediatamente associam que o processador é da marca Intel e que oferece uma série de características técnicas como qualidade e confiabilidade. Do mesmo modo, o selo verde da Assintecal seria uma forma de as pessoas associarem o calçado com as questões ligadas a sustentabilidade.

Este é o segundo “selo verde” que teve a participação da professora Tereza Carvalho em sua concepção. O primeiro foi concebido em 2008, quando ela ocupava o cargo de diretora do Centro de Computação Eletrônica (CCE), e visava a compra de computadores livres de chumbo, com eficiência energética e cujos componentes fossem recicláveis.

Mais informações: (11) 3091-1092 / 6343, (11) 9603-3790 ou email terezacarvalho@usp.br, com a professora Tereza Cristina Carvalho

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