FSP demonstra que elétricos e eletrônicos usados têm destino incerto

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Thiago Minami, especial para a Agência USP

Nos últimos cinco anos, foram descartados na cidade de São Paulo 20 milhões de equipamentos Elétricos e Eletrônicos (EEEs), num total de 267 mil toneladas. Ao lixo comum foram destinadas 17,4 mil toneladas. Desse total, 37% corresponde a monitores e TV com tubos de raios catódicos, que contêm grande quantidade de chumbo, substância nociva à saúde em excesso.

Os dados são estimados numa pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP que evidenciam que parte considerável dos EEEs acaba encostada ou descartada de maneira inadequada, com riscos de liberação de substâncias perigosas no ambiente, como mercúrio, chumbo, cádmio, que representam ameaças à saúde dos que lidam com os resíduos.

A pesquisa de doutorado de Angela Cassia Rodrigues, graduada em Tecnologia em Construção Civil, investigou o fluxo dos resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos (REEEs) no município de São Paulo. Ela levantou quantidades por famílias e comportamentos delas em relação a 26 tipos de produtos. Foram consideradas três etapas: aquisição/uso, armazenamento e descarte.

Estimou-se que há 71,9 milhões de EEEs nos domicílios paulistanos. São 8,8 milhões sem uso, dos quais mais da metade está quebrada ou com mau funcionamento. A maioria das famílias tenta consertar, mas encontra dificuldades e acaba desistindo. O principal motivo, apontado por 65% dos entrevistados, é o alto custo do reparo em relação à compra de um novo.

Entre os 20 milhões descartados, cerca de metade foi doada a terceiros, mas como eles também terão problemas com o conserto, não se sabe qual parte foi efetivamente reutilizada. Itens como geladeiras e computadores, por exemplo, geralmente são doados porque estão obsoletos e logo são deixados de lado.

“É preciso replicar a pesquisa em outras regiões. É provável, porém, que a situação seja semelhante em muitos pontos. Sobretudo quanto aos comportamentos e às dificuldades de conserto, pois os produtos vendidos são os mesmos no resto do país, diz Angela, que elaborou a pesquisa orientada pela professora Wanda Maria Risso Gunther.

Produtores

Parte da pesquisa investigou em Portugal os sistemas integrados de gestão para os REEEs, em funcionamento desde 2006. O país segue diretrizes da União Europeia (UE), onde vigora o princípio da responsabilidade estendida do produtor. Em resumo, os fabricantes são responsáveis pela gestão dos resíduos descartados. Foram licenciadas duas entidades gestoras, que assumem a responsabilidade pelos produtores. Além disso, os operadores de resíduos são obrigatoriamente licenciados, o que minimiza o risco de prejuízos ao ambiente e à saúde dos trabalhadores da reciclagem.

Para o Brasil, a pesquisadora recomenda algumas medidas semelhantes às portuguesas. Sobretudo para instalações que realizem todas as atividades de gerenciamento dos resíduos, desde a coleta até a disposição final dos rejeitos. Também para a implementação de mecanismos eficientes de controle e adoção de operadores profissionais.

Em 2003, Portugal já possuía regras bem definidas pela UE, com metas, prazos e responsabilidades. Mesmo assim, mais de quatro anos foram necessários para pôr os sistemas de gestão em funcionamento. No Brasil, é difícil estimar o tempo que vai levar, pois a solução depende de um acordo setorial, incluindo governo, fabricantes, comerciantes, distribuidores e recicladores.

Por aqui foi adotada a responsabilidade compartilhada. Diferentemente do modelo português, o nosso deixou dúvidas sobre quem arcará com o financiamento da gestão, como isso será feito e quais as responsabilidades de cada envolvido. “Questões polêmicas como metas, prazos, responsabilidade por REEEs órfãos e mercado ilegal de produtos continuarão sendo utilizadas como argumentos para se atrasar o processo”, diz Angela.

Mais informações: email angelacassia@usp.br , com Angela Cassia Rodrigues 

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