Estudo da FFLCH analisa presença da literatura russa no Brasil do Estado Novo

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Para Bruno Barreto Gomide, professor de Literatura e Cultura Russa na USP, mesmo com as diversas teses e estudos sobre o Estado Novo no Brasil (de 1937 a 1945), ainda há uma lacuna na nossa bibliografia quando o foco é a literatura russa. “É uma literatura fundamental no período, justamente por vir de um país soviético. O Estado Novo se constrói tendo em vista a existência do regime soviético, contra ele”, argumenta.

Na visão de Gomide, este período da história parece ser estudado apenas pelo aspecto da repressão – que obviamente existiu -, mas deve haver mais para se explorar. Neste sentido, o docente desenvolve, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a pesquisa Literatura Russa e o Estado Novo: Crítica, Censura e Mercado Editorial.

O tema é continuação de sua tese de doutorado, sobre a recepção da literatura russa no Brasil, que estudou até o período de 1936. “Parei nesse ano porque senti que o Estado Novo era um outro período, com novos personagens”, explica Gomide.

Financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o projeto segue quatro eixos: a crítica literária produzida no Brasil; o mercado editorial destinado aos russos, com destaque para a coleção de obras completas de Dostoiévski da editora José Olympio; a atuação dos órgãos de censura estadonovistas diante da literatura russa; e a política cultural soviética para a difusão internacional da sua literatura.

Crítica literária

Os clássicos da literatura russa tinham circulação mais livre, ao contrário de outras publicações de teor soviético. Assim,  há uma quantidade muito grande nesse período de artigos em revistas, jornais, capítulos em livros e outros, abordando a literatura russa. A primeira parte da pesquisa, portanto, já conta com material suficiente para reflexões e constatações. “É um momento decisivo para o gênero no Brasil”, afirma o pesquisador, explicando que nele é possível perceber o aparecimento de interlocutores fundamentais nesse ramo da crítica literária.

A produção dos artigos aumenta nos últimos anos da ditadura, quando o Brasil se alia geopoliticamente ao lado democrático. O regime torna-se controverso com a liberdade democrática dos aliados, como observa Gomide, e vai perdendo a força, possibilitando maior liberdade aos críticos para falar sobre conteúdos vindos da URSS.

“Coleção Dostoiévski”

Em relação ao mercado editorial, o estudo aborda principalmente o maior projeto da editora José Olympio na época, que foi o lançamento da Coleção Dostoiévski. A série, que pela primeira vez publicava um autor estrangeiro, começa a sair no começo do Estado Novo. Neste aspecto, o objetivo da pesquisa é reconstituir a montagem da coleção, o que ela significa no contexto da época, analisando o projeto gráfico, a tradução, e a crítica nos prefácios.

O eixo da censura ainda deve ser pesquisado mais a fundo. Já quanto à política, há grande quantidade de material levantado, como listas de livros enviadas da Rússia para a América Latina.

Na história das relações internacionais entre Rússia e América Latina há, entretanto, um hiato. Corresponde ao período entre o fim dos anos 1930 e começo da década de 1940, como aponta o pesquisador, até pelo fato de a Rússia estar em guerra, e a difusão cultural não ser uma prioridade na sua política externa.

Por outro lado, Gomide encontrou “muita coisa interessante nos arquivos, uma troca de informação cultural enorme entre acadêmicos latino americanos e russos”, revela. Prova disso é a existência de periódicos como o Literatura Internacional, produzido na União Soviética e traduzido para várias línguas, inclusive espanhol. Com o Brasil, no entanto, a troca foi bem menor, dificultada pelo próprio regime militar.

Uma descoberta curiosa realizada durante as consultas foi a constatação de que no material de difusão cultural enviado pela URSS não havia Dostoiévski. “É uma dissonância a ser explorada”, diz Bruno, referindo-se à adoração do autor no Brasil.

“O clima dostoiéviscano iluminava vários aspectos da literatura brasileira, todos queriam ter uma parte dele”, continua. Sua teoria para a disparidade é que Dostoiévski era um incômodo, por não se adequar aos moldes da ideologia socialista russa. “Não era um tipo de escritor que eles [a União Soviética] queriam exportar”, analisa.

A pesquisa se desenvolve há aproximadamente um ano e meio, deve prosseguir por mais três ou quatro anos. A intenção é, no final, originar a livre docência do professor, se inserindo no programa de pós-graduação do Departamento de Letras Orientais da FFLCH. 

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