Cartas entre escritores brasileiros trazem “jogo de sedução intelectual”

Thiago Minami, especial para o USP Online

“Minha infância não tem nada de particularmente notável, a não ser a educação, que considero má, que me deram pais católicos muito amorosos ambos, porém um rude e outro fraco. Entre a severidade do meu pai e a doçura da minha mãe, eu estraguei a minha sensibilidade”.

Carlos Drummond de Andrade | Foto: Wikimedia

O trecho acima é de uma carta escrita por Carlos Drummond de Andrade a um colega escritor em 1931. A princípio, é difícil de resistir à curiosidade sobre a vida pessoal do autor, assim como sobre a visão que ele tem de si próprio. No entanto, alertam os pesquisadores do assunto, é preciso ter cuidado ao assumir que tudo é real. “A carta não é um documento que diz a verdade, mas a constrói”, diz o professor Marcos Antonio de Moraes, professor de literatura brasileira no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

Tópicos como esse permearão o curso Memórias Póstumas – Correspondência de Escritores Brasileiros no Século XX, que será realizado entre os dias 10 e 12 de julho, das 14 às 18 horas, e é aberto ao público. Os professores são especialistas na análise de cartas de escritores como Gilberto Freyre, Graciliano Ramos e Mário de Andrade, que serão abordados nas aulas. Também serão discutidas correspondências de José Lins do Rego, Manuel Bandeira, Monteiro Lobato e Odette de Barros Mott.

No caso da carta de Drummond, é preciso entender, por exemplo, que a visão sobre os pais e a infância pode corresponder apenas ao momento específico em que ele estava escrevendo. Além disso, pode ser que o autor tivesse alguma intenção oculta ao retratar-se dessa maneira ao amigo – existe um “jogo de sedução intelectual” envolvido. Entender as diversas nuances requer um “olhar interdisciplinar”, diz Moraes, que vai além do texto escrito.

Outro exemplo está na frase “porque se existir escravatura mental eu sou um seu escravo”, que o paraibano Lins do Rego endereça a Freyre em uma correspondência. A pesquisadora Silvana Moreli Vicente Dias, uma das professoras do curso, explica que, para compreender a afirmação, é preciso conhecer a obra do sociólogo. Em livros como Casa-grande e Senzala, ele trata justamente da relação entre senhores e escravos – os meandros da visão freyriana sobre o assunto provavelmente estão por trás do que disse Lins do Rego.

O outro lado dos escritores

Bilhete de Drummond | Foto: Divulgalção IEB

Assim como hoje em dia as mídias sociais despertam o hábito voyeur sobre a vida alheia, as cartas também têm o apelo de mostrar a intimidade dos escritores e facetas que eles não mostram nas obras. “Nas cartas à esposa Heloísa, Graciliano Ramos usava de modo mais descontraído a ironia fina e o humor que aplicava nos romances”, diz a pesquisadora Ieda Lebensztayn, que falará sobre o autor no curso. O “velho Graça”, como era chamado por amigos mais jovens em algumas cartas, comunicava-se com a esposa por bilhetes na época em que estava preso. “Ele escrevia em qualquer pedaço de papel que aparecesse. Existem até marcas de copo com bebida no manuscrito de um conto”, explica Ieda.

Nas cartas, os escritores buscavam um linguajar entre a escrita e a fala. Mais ou menos como funciona a comunicação na internet no dias de hoje. Não é formal, “mas tampouco é despretensioso”, diz Moraes.

O escritor Monteiro Lobato foi além. Nas trocas epistolares com os leitores infantis, ele chegava a se fingir de um dos personagens, além de recriar o universo do Sítio do Picapau Amarelo como se fosse real. “Ele podia, por exemplo, escrever como se fosse o Visconde de Sabugosa para um leitor que gostasse muito da personagem”, conta a pesquisadora Raquel Afonso da Silva, que falará sobre as correspondências entre os escritores e o público.

Uma leitora, que escrevia a Lobato com o pseudônimo “Rã”, chegou a entrar para o Sítio numa das histórias. O criador da boneca Emília perguntou à garota quais eram as sugestões dela para uma “revolução na natureza”. Com base nas respostas, ele incluiu a personagem “Rã” no livro “A reforma da natureza”, de 1939.

Carta como objeto

Na era dos e-mails, o suporte físico para as correspondências desapareceu. Na contracorrente, a carta ganha status de objeto de valor, justamente pela nostalgia dos elementos que já não existem mais, como a caligrafia, o timbre, os desenhos. Por isso, o curso contará com um tour pelos 112 acervos de correspondências do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, guiado pela coordenadora do setor de Arquivos do IEB Elisabete Marin Ribas.

Carta de Euclides da Cunha | Foto: Divulgação IEB

“Quando manuseio esses objetos únicos, cheios de aura, como dizia Walter Benjamin, quando pego uma carta de Euclides da Cunha, tenho pena de que a carta tenha desaparecido. Aquela letra maravilhosa… Euclides da Cunha tem uma letra que parece formiguinha, deste tamanhinho, às vezes só a lupa permite a decifração: mas é regular, é perfeita. É caligrafia, não grafia…”, ressalta Walnice Nogueira Galvão, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP que abrirá o curso, em entrevista à revista de literatura brasileira Teresa.

Moraes ressalta que os estudos no campo ainda estão se iniciando no Brasil. O grupo que coordena é um dos poucos que tratam a carta como objeto final de análise – e não apenas um meio para se chegar à obra literária dos autores. Existem desafios, como a dificuldade de acesso ao material, que está disperso pelo país e em poder de proprietários que nem sempre sabem a importância dessa documentação. “Temos um longo caminho pela frente, mas estamos indo na direção certa”, diz o professor.

O curso Memórias Póstumas – Correspondência de Escritores Brasileiros no Século XX será ministrado entre os dias 10  e 12 de julho, das 14h às 18h. A inscrição, cuja taxa é de R$ 50, pode ser efetuada até o dia 6 de julho.

Mais Informações: (11) 3091-3199, email cursoieb@usp.br