Dicionário de Santomé mantém viva forma crioula do Português

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Na história do mundo, Portugal já foi o rei dos mares. Por causa disso, a língua portuguesa acabou se espalhando em latitudes diversas – e adquirindo contornos próprios ao se misturar com os idiomas locais. O resultado é que, além da língua oficial lusófona, muitos países desenvolveram formas do chamado português crioulo. São Tomé e Príncipe é um deles.

Para que estas línguas não se percam, levando com elas um imenso patrimônio cultural e histórico, é que vêm inciativas como o Dicionário Livre Santomé/Português, lançado em agosto como fruto de uma parceria entre USP e Universidade de Lisboa.

O livro é de autoria do professor Gabriel Antunes de Araújo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em companhia de Tjerk Hagemeijer, do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. O projeto teve apoio de órgãos como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), do Ministério da Educação e Ciência de Portugal.

O estudo das línguas crioulas

Localizado no Golfo da Guiné, São Tomé e Príncipe – oficialmente, “República Democrática de São Tome e Príncipe” – é um estado africano e insular composto por duas ilhas principais – Ilha de São Tomé e Ilha do Príncipe – e várias outras ilhotas, totalizando uma população de cerca de 160 mil habitantes. Mas além do oficial Português, três outros idiomas podem ser encontrados. Um deles é o Santomé – também conhecido como “Forro”, “Fôlô”, “Lungwa Santome” ou “São-tomense” – é uma língua crioula de base lexical portuguesa. Mas que características uma língua precisa ter para que passe a ser chamada de ‘crioula’?

Como explica o professor Araújo, “o termo ‘crioulo’ não tem nada a ver com cor; quer dizer ‘criado’. Da-se o nome de ‘língua crioula’ à língua que nasce do contato entre, normalmente, um povo expansionista e dezenas de outros povos confinados em um determinado ambiente”. Ou seja, “crioulo”, em linguística, nada tem a ver com etnias, mas sim com a criação de um idioma a partir da aglutinação e variação das culturas presentes em um determinado local.

Exemplificando o uso da nomenclatura, dessa vez fora do continente africano, o professor cita o caso de Dubai, a cidade-Emirado, dos Emirados Árabes Unidos, onde dezenas de pessoas do mundo inteiro, que não falam árabe, convivem conjuntamente nos ambientes de trabalho. Essas pessoas aprenderam a se comunicar através de uma variação do árabe que, devido às suas características únicas, resultou na criação de uma nova língua. As línguas crioulas de base portuguesa se deram quase da mesma maneira, só que nasceram todas no ambiente da escravatura.

Os portugueses confinavam dezenas de grupos étnicos africanos diferentes em um mesmo espaço. Cada grupo era falante de sua própria variação linguística, e não havia a presença de nenhum grupo étnico grande o suficiente para que pudesse impor sua língua e cultura aos demais grupos. Também tinham pouco acesso ao Português, de tal maneira que não conseguiam aprendê-lo corretamente. Ainda assim, conseguiram aprender algo parecido, que os escravos ensinavam aos negros recém-chegados: a língua resultante da mistura dos vários idiomas africanos com o Português. Assim nasceu, dentre outros dialetos, o Santomé.

Existem línguas crioulas de base portuguesa, espanhola, francesa, alemã, árabe. E uma de suas características mais interessantes é que, devido às suas condições histórias extremamente específicas, ao contrário das demais línguas, “nós sabemos exatamente como e quando elas nasceram”, ressalta o professor Araújo. “O português, por exemplo, diz-se que nasceu entre o século VIII e XII, mas nós não temos como dizer exatamente quando que isso de fato aconteceu. Já o crioulo de São Tomé, podemos dizer que nasceu entre 1495 e 1515. Pois em 1495 a ilha estava vazia, e em 1515 já há relatos de uma língua diferente do Português”, comenta.

O dicionário enquanto registro de uma época

As línguas crioulas africanas de base portuguesas são muito pouco estudadas, e também ficam em regiões de difícil acesso –  países muito pobres da África, como a Guiné-Bissau, Senegal, Gâmbia, São Tomé e Príncipe, entre outros.

Além do acesso, há outra dificuldade no estudo dos crioulos: não há incentivo para que eles sejam falados e ensinados. Em São Tomé e Príncipe, de acordo com Araújo, os pais não estimulam as crianças a aprenderem a língua crioula, afinal o Português tem um valor utilitário muito maior, por ser a língua oficial. É a língua da escola e da televisão, é o idioma do governo e dos negócios. Os pais, almejando um futuro melhor aos seus filhos, reprimem o aprendizado do Santomé pelas crianças. O que aponta para os motivos da existência de pouquíssimo material documentado com palavras dessa língua.

Foi assim, com grandes dificuldades técnicas e acadêmicas, que durante um período de seis anos foi desenvolvido o registro dessa língua em um dicionário.

Cerca de 8500 palavras foram classificadas, com a essencial ajuda de uma parcela da população falante de Santomé.

A pronúncia e a escrita dos vocábulos também foram checadas e registradas com a ajuda da população, pois, assim como no Português, existem no Santomé variações linguísticas dentro da própria língua – embora no Santomé não haja uma classificação das variações entre “certo” e “errado”, afinal não há norma ortográfica que regulamente a língua.

Para o autor, a falta de um aparelho normativo na língua crioula estudada é, por um lado, algo bom, porque as pessoas convivem sem a opressão das normas. Por outro lado, muitas palavras se perdem. “Temos que documentar esses exemplos de fala para que, no futuro saibamos que eles existiam”, diz.

Essa é a importância de um dicionário. Se olharmos, por exemplo, para um dicionário de Português, veremos que lá há milhares de palavras que não conhecemos e que não usamos, mas que fazem referência a uma época da história Brasileira. Os dicionários são importantes como documentação, caso contrário as palavras em desuso do Português também se perderiam com o passar do tempo. “O dicionário é uma foto da língua e da cultura de uma época”, conclui Araújo.

Imagens: Aída Stockler

Mais informações: email g.antunes@usp.br, com o professor Gabriel Antunes de Araújo

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