Cosmópolis pensa São Paulo e seus imigrantes como “resumo do mundo”

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Convênio com a prefeitura viabiliza conexão do projeto com a comunidade não acadêmica

Mário de Andrade, em seu poema Sambinha, não precisa se esforçar para apresentar ao leitor a cara da cidade de São Paulo. As ‘costureirinhas’ que descem a Rua das Palmeiras, são para o modernista:

Tão bonitas, tão modernas, tão brasileiras!
Isto é…
Uma era ítalo-brasileira
Outra era áfrico-brasileira

E trazem à tona a identidade desta pauliceia desvairada que era – e ainda é – a metrópole, afinal, a história de São Paulo não pode ser entendida sem pensar, ao mesmo tempo, na história da imigração que contribuiu não só para a riqueza e desenvolvimento econômico da região, mas também para a efetivação dos direitos sociais no país a partir de lutas dos próprios imigrantes.

Para entender melhor a situação dos ‘futuros paulistanos’ é que o Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, em parceria com a Prefeitura do Município de São Paulo, iniciam o projeto de extensão Cosmópolis. “Buscamos uma política mais ampla, mais democrática”, contou a diretora do Instituto, Maria Hermínia de Almeida, durante a cerimônia de assinatura do convênio com a Prefeitura. “O tema da mobilidade humana é central da globalização, e como Universidade temos importante impacto sobre a sociedade e o governo ao tratar destes temas”.

Estavam presentes na mesa, além do vice-diretor do IRI, membros do Coletivo Educar para o Mundo, da unidade, e o secretário municipal de Direitos Humanos, Rogério Sottili. A mediação ficou por conta da professora associada do IRI Deisy Ventura, que coordena o projeto com os professores Rossana Reis e Feliciano Sá.

Uma cidade do mundo

Diferente de outros projetos de extensão da Universidade, com um caráter de assistência mais direta, o Projeto Cosmópolis vai cooperar com a prefeitura na elaboração de um diagnóstico dos imigrantes no município de São Paulo, agrupar os estudos que já existem sobre migração e tornar este acervo acessível. O projeto prepara também a criação, para o ano que vem, de um atlas das migrações internacionais na cidade, que leva o nome do projeto. “A USP é exemplo. Pela sua importância, tem um equipamento de extensão que presta assistência à comunidade”, afirma Deisy lembrando do Hospital Universitário e outros projetos da USP. “Mas não é esta a busca do Cosmópolis, que elabora um outro saber em conjunto”.

Foto:Guilherme Gaensly / Memorial do Imigrante Imigrantes no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, na década de 1890
Foto: Guilherme Gaensly / Memorial do Imigrante
Imigrantes no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo, na década de 1890

Durante o primeiro momento, o projeto vai ter dois focos essenciais: o primeiro é avaliar a qualidade do atendimento aos migrantes nos diferentes serviços da prefeitura municipal, como os de saúde, por exemplo. “Esse diagnóstico nós já começamos. Realizamos entrevistas com agentes da prefeitura”, conta Deisy. A partir deste primeiro contato, foram encaminhadas novas entrevistas e referências que fizeram com que o projeto pudesse ser levado à primeira Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, que aconteceu no dia 1º de dezembro em São Paulo. Na ocasião, o grupo teve a oportunidade de entrar em contato com os grupos de estrangeiros, foco de seu trabalho.

A cooperação com a Prefeitura surge, então, com a apresentação dos resultados adquiridos pelo projeto no que se refere aos principais desafios dos atendimentos públicos aos imigrantes – e quais formas de políticas públicas poderiam ser pensadas para auxiliar na solução dos problemas constatados. “Certamente não se trata só de políticas específicas para imigrantes”, lembra Deisy, “mas também da transversalidade em todas as políticas para direitos que consigam levar em conta as peculiaridades dos imigrantes”.

Banco de dados da imigração

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O Projeto Cosmópolis pretende concentrar, em um mesmo local e de forma acessível, tanto para a comunidade acadêmica quanto para a sociedade, os estudos e dados que já existem sobre as migrações internacionais em São Paulo. “Essa era uma grande preocupação nossa, descobrimos a cada semana a existência de um novo estudo sobre as imigrações na cidade”, comenta Deisy, ainda que reconheça não ser possível tomar conhecimento de tudo aquilo que se produz nas universidades brasileiras sobre o assunto. A pesquisadora deixa claro, também, que não é só na universidade que se produz material referente ao tema: institutos de pesquisa e entidades oficiais seguem trabalhando com dados das imigrações.

“Pensamos também em tornar acessível um extraordinário acervo que os próprios imigrantes produziram sobre a sua presença e visão do Brasil”, diz, apresentando a proposta da professora Rossana Reis. Está prevista, para o próximo ano, a criação de um Atlas das Migrações Internacionais em São Paulo. Para essa iniciativa, o Cosmópolis conta com o apoio do Centro Universitário Maria Antonia na organização do banco de dados. “Eles têm bastante experiência nesse tipo de atividade e vamos disponibilizar o atlas eletrônico no seu portal”, revela a pesquisadora.

O Cosmópolis promete ser um trabalho contínuo e que busca oferecer, de maneira legível para a sociedade, o conhecimento que é produzido na Universidade. No próximo ano será realizada uma chamada pública para que pesquisadores do Brasil e do exterior que tiverem trabalhos sobre a imigração em São Paulo, possam fazer parte dessa base. “Isso pode se tornar mais adiante um mapa das migrações no Brasil” – é o que espera Deisy a partir da adesão de outros centros de pesquisa.

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