Mudança no ensino de graduação é meta prioritária

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Paulo Hebmüller / Jornal da USP

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

Jornal da USP – A USP recebe muitas demandas externas sobre expansão, inclusão, com possível adoção de cotas, atendimento de novos públicos etc., e ao mesmo tempo convive com a exigência interna de manter a qualidade. Como conciliar esses dois eixos?

Marco Antonio Zago – Não acho que inclusão, desde que bem-feita, leve a perder qualidade. O problema central é que a USP não tem condições de atender sozinha a todas as múltiplas e legítimas demandas da sociedade. A USP, a Unesp e a Unicamp atendem a uma parcela relativamente pequena dos jovens em idade de frequentar a universidade no Estado de São Paulo, e ao mesmo tempo a contribuição do ensino universitário federal em São Paulo é muito pequena e tem que aumentar. A grande maioria dos jovens vai para o ensino privado, porque não há espaço no ensino público. Na USP, temos um primeiro limite no número de alunos, que já é muito grande se compararmos com as chamadas universidades de excelência no mundo. Há com frequência comparações absolutamente injustas quando se diz que a USP não está entre as cem melhores nos rankings internacionais. As primeiras classificadas das listas têm em média 17 mil alunos, dos quais 60% são de pós-graduação. Nós temos 90 mil alunos em todas as áreas do conhecimento, o que também não é comum. Com os recursos de que dispomos e a demanda que temos, já prestamos um serviço de muita qualidade. A ampliação de vagas na USP tem que ser feita muito criteriosamente e quando todos estejam convencidos de que isso terá um impacto social importante.

JUSP – O senhor defende que combater a evasão também é uma medida essencial.

Zago – Se reduzirmos nossa evasão para os níveis correspondentes aos das boas universidades do mundo, já teremos feito um grande progresso. O que interessa na Universidade não é quantos alunos entram, mas quantos estudantes formados saem. Outra questão central é que a USP, além de ter produção científica e formação de pessoal qualificado, precisa ser instrumento de modificação da sociedade, porque a sociedade investe muito aqui. Precisamos intervir nesses ciclos que se reproduzem continuamente na sociedade.

JUSP – Quais as formas de fazer essa intervenção?

Zago – Em primeiro lugar, na questão do acesso. As propostas de implantação de cotas foram largamente discutidas, e há uma resistência muito grande a elas – e sabemos que na USP nada deve ser imposto, tudo tem que ser acordado. Foi aumentado o bônus para alunos de escolas públicas no vestibular. Vamos analisar o resultado do exame de 2014, que sairá em breve, e ver se de fato houve progresso na inclusão. Se verificarmos que estamos caminhando de forma muito lenta para atingir os objetivos que a USP propôs para 2018, será necessário usarmos outros instrumentos para aumentarmos a inclusão. Existem vários, não obrigatoriamente cotas. Podemos, por exemplo, ter mais de uma via de acesso, como já faz a Unicamp. O vestibular não precisa ser a única métrica de excelência para entrar na Universidade.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Zago – É uma reforma em todos os sentidos, isto é, transformar a graduação no objeto prioritário de atenção de todos, tomando medidas para que muitas das coisas que engessam as decisões sejam simplificadas. A Universidade tem cursos, departamentos e setores muito diversos. Não há um modelo único: há princípios gerais, mas aplicar exatamente as mesmas regras e os mesmos padrões para cada um desses setores é uma grande loucura que a Universidade continuamente tenta fazer. Será necessário aceitar essa diversidade em todos os aspectos – organização de currículo, progressão na carreira, avaliação de docentes etc. –, e ao mesmo tempo encurtar o caminho das tramitações. Se uma reforma de currículo demora dois anos para ser implantada, alguma coisa não está correta.

JUSP – O senhor defende que os alunos tenham mais liberdade para montar seu próprio currículo?

Zago – Defendo, e na medida do possível isso será feito. Agora, essa é uma coisa mais fácil de ser implantada localmente, nas unidades, do que como diretriz geral. Temos um modelo de ensino que não respeita aquilo que alguns gostariam – por exemplo, que começasse muito genérico, como um college, e depois fosse para a parte profissionalizante. Não é possível modificar completamente o nosso modelo, mas é possível modificá-lo parcialmente. Também estamos muito atrasados na questão dos modelos pedagógicos. Precisamos incorporar muito mais intensamente os métodos digitais e até oferecer oportunidades de treinamento para os nossos docentes. Não estou falando aqui dos processos de Ensino a Distância, que é uma outra realidade, da qual a USP deve participar cuidadosamente. Essa é uma missão particularmente da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp).

JUSP – Muitos docentes frequentemente se queixam da excessiva valorização das publicações e criticam o que chamam de cobrança de um “produtivismo acadêmico”. Como equilibrar a valorização do ensino de graduação e outras formas inclusive de ascensão na carreira que não passem exclusivamente por esses critérios de quantificação?

Zago – De tudo isso que se diz, e se diz há muito tempo, nada é de fato resultante de dispositivos regimentais ou estatutários, ou de uma diretriz da Universidade. Ninguém nunca falou que deveria ser assim. Esses são hábitos que nós mesmos fomos adotando e que partem de uma visão positiva, de valorização da produção científica e intelectual – mas de jeito nenhum podemos pensar nos exageros que resultam nessa contabilidade que nem sempre, aliás, reflete coisas significativas e nem se aplica genericamente a todas as áreas e todos os perfis de professores. A valorização da pesquisa é um pilar da USP, mas o outro pilar importante tem que ser a valorização da dedicação ao ensino de graduação, que temos que recuperar. O outro de certa forma está feito.

JUSP – Está bem encaminhado.

Zago – Mais ou menos bem encaminhado. Há distorções, como esse exagero na contabilização de números. Não podemos descuidar da valorização da produção científica, mas estamos perdendo a mão no outro pilar, que é a valorização do ensino de graduação. Insisto nesse ponto porque estou convencido de que é isso que precisa ser feito para a USP restabelecer o seu equilíbrio. Teremos que discutir e achar o melhor caminho, ouvindo a maioria das pessoas e encontrando algo que deve ser aceito por todos – os que têm especial dedicação à graduação e os que têm especial dedicação à produção científica. Certamente o elemento central é o reconhecimento de que temos perfis diferentes dentro da Universidade.

JUSP – O senhor tem falado também em mapear os egressos da USP.

Zago – Isso é fundamental. É um instrumento de gestão, e todas as boas universidades do mundo o fazem. Elas sabem onde estão seus ex-alunos depois de cinco anos de formados. Não há nenhuma maneira de avaliação do ensino de graduação melhor do que essa, porque mostra se de fato as pessoas conseguiram ser bem-sucedidas ou não.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

JUSP – Em sua gestão na Pró-Reitoria de Pesquisa houve destinação de recursos próprios da Universidade à pesquisa, com criação de novos núcleos e incentivo à interdisciplinaridade. O senhor pretende manter esse foco?

Zago – Sim, dentro do possível e depois de considerados os recursos disponíveis – estamos organizando a equipe para examinar a situação financeira de fato da Universidade. Essa é uma ação importante que teve efeitos positivos, mas não pode ser vista como forma de substituir as agências financiadoras. A USP é a universidade que mais capta recursos tanto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) quanto da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e não nos cabe substituí-los. O uso de recursos próprios deve ser visto como instrumento para promover determinadas políticas.

Quando fizemos o Programa de Apoio à Pesquisa, havia subjacente a ele a noção de que tínhamos que provocar uma reorganização da pesquisa na USP no sentido de torná-la mais interdisciplinar. Isso se mostrou muito benéfico, porque depois, num processo muito mais competitivo e no qual havia muito mais recursos envolvidos – o dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da Fapesp –, um certo número dos Cepids aprovados na USP se originou do nosso programa. Da mesma maneira, estamos dando um recurso a mais para o docente que acaba de ingressar na Universidade, desde que ele submeta um pedido de auxílio à Fapesp. Isso aumentou muito a proporção dos recém-contratados que pediram recursos e, como consequência, dos que receberam. Dessa forma, captamos dez vezes mais do que investimos. Isso não é bom só do ponto de vista financeiro, pois cada um desses recém-contratados fez seu próprio projeto de pesquisa.

JUSP – A propósito de novos professores, a carreira docente sempre é um tema em pauta. Como o senhor pretende encaminhar essa discussão?

Zago – Acho que neste momento o elemento mais importante que precisamos cuidar é termos uma leitura mais equilibrada, no processo de progressão, da importância da produção científica, na medida do possível focando mais no impacto que essa produção tem. Outro elemento a considerar muito é a importância da dedicação ao ensino de graduação. Precisamos desenvolver parâmetros ou abordagens que nos permitam avaliar a qualidade da dedicação do docente à graduação.

JUSP – A Nova Carreira dos funcionários teve duas das três progressões previstas. O senhor pretende manter a carreira como ela foi inicialmente implantada?

Zago – Em princípio sim. Por enquanto não temos nenhum elemento que sugira que ela não devesse andar. Nos debates durante a campanha ouvimos algumas queixas relativas ao processo de avaliação, mas me parece que não são coisas difíceis de ser resolvidas desde que se faça uma revisão do processo, o que é natural depois de duas rodadas.

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