Estudo da ECA investiga processo de construção da interpretação pelo ator

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Ana Paula Souza / Agência USP de Notícias

A atriz e professora Rejane Arruda, em sua tese de doutorado O Ateliê do ator-encenador: Enquadramento, Incidência e Vulnerabilidade na Poética da Cena, apresenta um novo campo de experimentação no âmbito da construção do ator. Sob orientação do professor Armando Sérgio da Silva, o trabalho elaborado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP mostra que o processo de construção da interpretação é formado por três funções, as quais revelam características pouco analisadas a respeito da atuação e também do próprio corpo.

Segundo Rejane, o processo de elaboração da “impressão digital”, que seria a construção do ator em si, é precedido pelo contato com diversos elementos materiais (músicas, filmes, obras de arte, entre outros), os quais constituem o que o professor Armando Sérgio da Silva entende como “anteparo”. E o trabalho da professora investiga justamente como se dá o caminho de constituição da impressão digital a partir do contato com o anteparo.

Nessa investigação, a tese revela que processo de construção do ator se dá a partir de três funções, as quais são intituladas Incidência, Enquadramento e Vulnerabilidade. As três funções são estruturais e articuladas, e acontecem a um só tempo no trabalho do ator. Na Incidência, o ator é invadido pelas diversas informações que constituem o anteparo, em um processo no qual, muitas vezes, o ator não tem consciência dessa invasão. O contato com diferentes referências gera resultados distintos, muitas vezes conflitantes, os quais se organizam de maneira caótica no ator e em uma lógica de tempo que não é cronológica. Esse caos faz com que seja necessária a segunda função, intitulada Enquadramento, quando o ator desenvolve uma maneira própria de organizar em si as diferentes impressões resultantes do contato com o anteparo. Materiais que limitam o espaço (como uma escada ou uma cadeira) ou que organizam tempo (como uma música) podem ajudar o ator a delimitar a enquadrar os limites de suas atuações e de suas expressões corporais.

A terceira função consiste na Vulnerabilidade, quando o ator atualiza a sua memória corporal sem se dar conta disso. Segundo Rejane, enquanto que com a Incidência e com o Enquadramento o ator lida com resultantes do contato com o anteparo, ou seja, com os elementos materiais que lhe dão suporte para a interpretação, com esta função Vulnerabilidade ele atualiza a organização de uma memória singular, impregnada de materiais que não se dá conta. Nesse ponto, o enredo de afeto é atualizado e traz novos materiais para a atuação, não pensados anteriormente, preenchendo o enquadramento com algo vivo. Assim, a impressão digital torna-se própria, singular daquele ator em específico

Uma investigação prática

Rejane dedicou quatro anos à produção da tese, a qual, segundo ela, “foi elaborada a partir da vivência prática na construção de espetáculos e do diálogo constante com obras de teóricos, como Eugenio Barba, Viola Spolin, Constantin Stanislavski, Eugenio Kusnet e Jerzy Grotowski, além do arsenal teórico conceitual advindo da psicanálise lacaniana”. Nesse processo, a pesquisadora elaborou o que ela intitulou de arranjo, no qual há o diálogo entre diversas correntes teóricas que são consideradas divergentes por muitos estudiosos. Na tese, mostra que o ponto de convergência entre essas ideias está no momento em que o ator se vê na construção do seu papel.

Segundo Rejane, a importância do assunto se deve ao fato de que esse processo de construção é obscuro não apenas para o público, mas, inclusive, para o próprio ator. Assim, a análise desse caminho rumo à impressão digital abre novas perspectivas para a experiência cênica criativa, se configurando como uma orientação que o ator pode absorver, apropriar e experimentar a seu modo.

Mais informações: email rejane.arruda@usp.br

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