Estudo da FFLCH aponta como a financeirização altera capitalismo após a década de 1980

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Sandra Monteiro / Agência USP de Notícias

Para entender o conceito de financeirização, fase do capitalismo em que as transações e mercados financeiros ganham força no sistema econômico mundial, é preciso compreender a fundo as transformações globais da economia e seus reflexos nas sociedades. Um exemplo deste fenômeno foi a necessidade de se abrirem novas possibilidades de investimentos na década de 1970 devido à quantidade elevada de capital não reinvestido na produção bem como de dólares advindos da exploração do petróleo.

Para o cientista social Ilan Lapyda, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, “tanto a liberalização quanto a desregulamentação dos mercados foram essenciais para viabilizá-los, exigindo grande pressão política, como, por exemplo, da parte de organismos como o FMI e seus ajustes estruturais impostos a diversos países nas décadas seguintes”. A análise feita em sua dissertação de mestrado A financeirização no capitalismo contemporâneo: uma discussão das teorias de François Chesnais e David Harvey comparou as teorias de dois pensadores marxistas sobre o fenômeno: François Chesnais, economista francês, e David Harvey, geógrafo inglês radicado nos EUA. A pesquisa foi orientada pelo professor Ricardo Musse.

Buscando destacar as consequências deste processo — como as crises financeiras ocorridas desde os anos 1980, em especial a iniciada em 2008 —, Lapyda explica que além de autores importantes, suas contribuições são complementares. “Enquanto Chesnais constrói uma visão mais detalhada sobre o que é financeirização, Harvey enriquece a análise centrando-se em conceitos tais como o neoliberalismo e o imperialismo”, afirma o pesquisador.

Para o cientista social, por meio da análise foi possível perceber que a financeirização liga-se intimamente a vários aspectos do sistema capitalista. Ela representa uma alteração nas configurações do sistema, sobretudo, a partir da década de 1980, quando houve um aumento de transações financeiras por meio da liberalização e da desregulamentação de mercados e de atividades financeiras. O estudo mostra, por exemplo, que do pós guerra até antes da virada dos anos 1970 as finanças eram muito mais restritas devido aos controles impostos pelos países e elas serviam muito mais ao fomento da produção. Em contrapartida, hoje em dia a especulação e as transferências de riqueza da produção para os mercados financeiros são maiores.

Novos agentes e luta de classes

Além disso, a pesquisa também permite entender que a financeirização não apenas contribui para o surgimento de novos agentes e instituições como também é produto da luta de classes, de modo que o fenômeno possui uma dimensão política fundamental a ser considerada.

Com relação aos novos agentes e instituições o pesquisador discorre que há o aumento de operadores financeiros, ou seja, aqueles que trabalham diretamente nas operações financeiras e a criação de fundos que ampliam o leque dos chamados investidores institucionais. Com o passar do tempo, alguns agentes (como os bancos) tiveram seu papel modificado pela entrada de outros investidores institucionais no mercado, que aos poucos têm sua importância reforçada, tais como os fundos de pensão.

Já quanto a ser um fenômeno da luta de classes, Lapyda explica que, de acordo com David Harvey, a financeirização insere-se como parte do contexto neoliberal. E em seguida reflete que “para as classes altas, o neoliberalismo não representou apenas uma doutrina econômica almejando reanimar a economia mundial, mas principalmente um processo político de retomada de sua hegemonia e da dominação sobre o resto da sociedade.”

Consequentemente, tentar gerenciar ou restringir os mercados financeiros dificilmente será possível sem transformações sociais e políticas mais profundas, pois envolverá necessariamente alterar certos mecanismos cruciais do capitalismo atual e contrariar interesses dominantes.

Reflexos na sociedade

Da análise é possível depreender ainda que entre as importantes consequencias sociais apontadas por Harvey e geradas pela inserção da financeirização na ideologia neoliberal, há o aumento da desigualdade de renda entre os mais ricos e os mais pobres, pelo menos nos países centrais do sistema capitalista. Em contrapartida, Chesnais, fala em fragilidade sistêmica para caracterizar a vulnerabilidade dos países às crises econômicas e às movimentações de capital financeiro.

Um olhar mais cuidadoso, no entanto, sobre os mercados financeiros ajuda a entender melhor seu funcionamento e a desmistificá-los. O cientista social constata por fim que eles são responsáveis por enormes transferências de riqueza entre pessoas e países, sobretudo em tempos de crise. “Assim, compreende-se melhor como o destino de milhões de pessoas está de alguma forma ligado ao funcionamento da esfera financeira e quão nefasto é este”, reflete o pesquisador.

Mais informações: ilan.lapyda@usp.br

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