Especialistas indicam desafios para a prática da leitura no Brasil

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William Nunes / Revista Espaço Aberto

Mais de 60% da população brasileira considera a leitura uma fonte de conhecimento para a vida. É o que diz a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil 3”, realizada em 2011 pelo Instituto Pró-Livro (IPL) e divulgada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Porém, a mesma investigação chegou à conclusão de que o índice de penetração de leitores pelo País caiu em 5% desde o último levantamento, em 2007. Além disso, dados do Ministério da Educação de dezembro de 2014 mostram que um em cada quatro estudantes das redes públicas estaduais e municipais se encontra no nível mais baixo de avaliação do português.

Foto: Divulgação
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Leitura e escrita funcionam como uma ferramenta a mais para auxiliar nos processos da memória

O que temos para enfrentar

Sabemos que ler traz muitos benefícios a quem o pratica de modo correto. A leitura desenvolve e aumenta o repertório geral, auxilia para que o indivíduo tenha senso crítico, amplia o vocabulário, estimula a criatividade e, finalmente, facilita a escrita. Mas ainda que carregue consigo um lado bom, é preciso tomar cuidado e selecionar bem o que se lê. Segundo Valdir Heitor Barzotto, professor da Faculdade de Educação (FE) da USP, vivemos em um momento em que há excesso de material disponível. “O que também pode ser prejudicial, pois uma pessoa pode ler coisas que não são, necessariamente, de uma fonte confiável. É uma novidade do tempo contemporâneo. Existe muito acesso ao texto, mas não ao conhecimento”, explica ele. A grande quantidade de informação disponível foi propiciada, principalmente, pelo avanço da tecnologia, em especial o da internet.

Além disso, outro grande problema do panorama da leitura e da escrita no País é a questão da interpretação. Alunos com 14 anos ainda têm dificuldades em identificar informações que estão tanto explícitas quanto implícitas em um texto. Este déficit transcende a disciplina de português e atinge matérias como matemática, no momento de interpretar enunciados-problema, e história, para compreender as relações entre os fatos. Nesse sentido, é importante lembrar o papel de uma educação de boa qualidade, pois é necessário, primeiramente, ultrapassar a barreira da dificuldade da leitura para que o poder de interpretação seja facilitado.

Na busca pela melhoria do incentivo à leitura e escrita no País, há três perspectivas para as quais devemos tornar os nossos olhares: o governo, a escola e o próprio lar. Esses três constituem os principais pilares e não acontecem separadamente. Do poder público é preciso cobrar uma melhor administração dos recursos destinados a levar as pessoas a ler. Para o professor Barzotto, isso se reflete, principalmente, nas bibliotecas escolares que, além de estarem bem aparelhadas, também devem contar com bons funcionários especializados em leitura. “O governo precisa garantir uma estrutura mínima em que seja possível ler”, afirma. Além disso, o professor diz que o poder público também não deveria se envolver na visão de trabalho de quem ensina. Para ele, este profissional deveria ter mais autonomia para encontrar as metodologias adequadas para o grupo com o qual trabalha. Através de provas nacionais, o governo tem controle sobre as normas de como deve ser feito o ensino dentro das escolas e, através dos resultados, muitas instituições de ensino se submetem a elas. “Ter mais nota não é uma avaliação do que, de fato, aquela escola está fazendo pelos seus alunos”, completa Barzotto.

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O professor Valdir Barzotto diz que o governo deve administrar melhor os recursos para a educação

No que diz respeito às funções da escola, é necessário que se construa uma autonomia dentro de cada uma. Hoje, muito do que é reproduzido em sala de aula parte de pesquisas advindas das universidades, como investigações sobre leitura, escrita e aprendizado. Cria-se então uma relação de dependência, quando, na verdade, a universidade deveria funcionar como uma parceira. “Por mais que saibamos que o Estado controla como se deve fazer, ele não está todos os dias na escola.”

Em casa, o professor Barzotto diz que é indispensável que haja material de leitura disponível, mas ressalta que quantidade nem sempre é qualidade. O importante é que, primeiramente, não se force o hábito de leitura na família como uma obrigação, mas sim como um prazer. É muito mais produtivo que a família converse e discuta sobre o que leu.

O novo papel das bibliotecas

Durante a Idade Média, quando a Igreja ainda detinha grande poder, livros eram materiais de difícil acesso para a população mais simples, que era analfabeta em quase sua totalidade, e o conhecimento era restrito apenas para a elite da sociedade. Hoje, com a população tendo total acesso a esses ambientes, a mentalidade que ainda ficou desta época foi que bibliotecas são locais de uma cultura mais rica e que ela deve, necessariamente, ser consumida, independentemente do conteúdo. No entanto, a professora Ivete Pieruccini, do Departamento de Biblioteconomia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, diz que o correto seria destituir esse peso obrigatório da leitura e transformá-lo em um ato espontâneo do cidadão e do frequentador desses ambientes.

A reversão de um quadro histórico como este não acontece da noite para o dia e está relacionada a algumas instâncias, como as políticas públicas. Elas devem estar aliadas a uma formação que instigue o pensamento inovador por parte dos profissionais bibliotecários. É neste modelo que está baseada a disciplina de Informação, Educação e Conhecimento da ECA. “A biblioteca não deve ser mais um lugar só de emprestar livro ou de estimular a leitura”, diz a professora. “Ela tem que ser pensada em uma dimensão que possa acolher diferentes singularidades, para que o sujeito possa buscar outros caminhos por si mesmo, seja em sua comunidade ou fora dela. E, a partir disso, construir uma relação que seja significativa para ele.”

Nesse aspecto, alguns resultados já foram obtidos. A Lei nº 12.244, de maio de 2010, obriga que todas as instituições de ensino, públicas ou particulares, tenham um acervo bibliotecário até 2020. Além disso, ações inovadoras que têm sido feitas podem servir como exemplo. O projeto Quem Lê Sabe Porquê, da Secretaria Municipal de São Paulo e com parceria com docentes da ECA, tem por objetivo formar mediadores entre leitura e escrita e organizar atuações socioeducativas. A proposta prática é, a partir das bibliotecas dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), integrar as comunidades próximas através de saraus, leituras dramáticas, musicais e até gestuais. Deste modo, será possível que o cidadão se aproprie dos livros e do conhecimento adequados aos seus próprios gostos. “É preciso incluir o sujeito, para que ele participe das ações, proponha e seja um protagonista dessa situação, ao invés de atraí-lo para que ele vire um mero usuário da leitura”, completa Ivete.

No futuro

Foto: Divulgação
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O projeto Quem Lê Sabe Porquê tem por objetivo organizar ações socioeducativas através da leitura e oralidade

De acordo com a professora Fraulein Vidigal de Paula, do Instituto de Psicologia (IP), a deficiência na alfabetização e no desenvolvimento da escrita e leitura pode acarretar consequências futuras, tanto no campo cognitivo quanto no campo social. “Há pesquisas que mostram que há diferenças entre crianças e adultos antes e depois do processo de alfabetização em relação às habilidades de senso crítico”, explica. Pessoas que, por algum motivo, foram privadas da leitura podem apresentar maiores dificuldades em situações que exijam maior deslocamento da sua realidade comum, como em momentos de resolução de problemas.

Quem não teve acesso pleno ao ensino da leitura e da escrita também pode apresentar desvantagens no campo da memória de retenção e de recuperação. “Se eu der uma sequência de palavras para alguém decorar, muito provavelmente aquele que não sabe ler e escrever terá mais dificuldades para relembrar”, conta a professora. Isso ocorre porque a escrita funciona como uma ferramenta adicional no momento de resgatar os vocábulos e é também mais um registro visual e sonoro que pode se ligar às palavras.

No aspecto social, não saber ler “é como ir a um país onde você não domina a língua”, diz Fraulein. É um impacto social do ponto de vista das diferenças no acesso à informação e pleno exercício dos seus direitos, além de colocar o cidadão em pé de igualdade com outras pessoas em diferentes situações. “Uma pessoa que não sabe ler e escrever se sente numa posição de desigualdade social em relação às que dominam esse conhecimento. Ter acesso a essa habilidade é um empoderamento a mais do cidadão”, completa a professora.

Escrita aos Pares

Avaliações oficiais que medem o nível de aprendizado dos alunos de escolas públicas e particulares deixaram de ser o único método levantado por professores. A partir de uma insatisfação por parte desses profissionais com os testes externos aplicados, Escrita aos Pares – Experiência e Registro de uma Testagem Processual conta como professores da Escola Graduada retomaram para si o direito de avaliarem seus alunos, identificando, através de correção de textos e relatórios, problemas na aprendizagem e nos seus métodos de ensino.

Título: Escrita aos Pares – Experiência e Registro de uma Testagem Processual
Organizadores: Angelina Fregonesi, Eloísa Galesso e Valdir Heitor Barzotto
Editora: Paulistana
Páginas: 177
Preço: R$ 38,00

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