Dores de cabeça ocorrem em 72,8% de jovens estudantes, mostra pesquisa da FMRP

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Rosemeire Soares Talamone, do Serviço de Comunicação Social da Prefeitura do Campus USP de Ribeirão Preto

Pesquisa realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP feita entre 415 jovens com idade média de 15 anos, estudantes da rede estadual de ensino da cidade de Ribeirão Preto (interior de São Paulo), revela uma prevalência de dor de cabeça (cefaleia) de 72,8%. O estudo mostra maior ocorrência de cefaleia entre mulheres, usuários de aparelhos ortodônticos e consumidores de bebidas alcoólicas. O trabalho também aponta que não há correlação entre dor de cabeça e horas de sono, uso de óculos, prática regular de exercícios, horas semanais gastas em TV, internet e videogame, e nem com as notas escolares.

O estudo de Mestrado do médico Luiz Eduardo Vieira Grassi, na área de Neurociências, orientado pelo professor José Geraldo Speciali, da FMRP, estimou a prevalência de cefaleia e variáveis físicas, como gênero (sexo), cor da pele e doenças crônicas referidas e índice de massa corporal (IMC). E, ainda, com outras variáveis como uso de óculos ou aparelho ortodôntico, horas de sono e exercícios físicos regulares, assim como, horas por dia de uso de TV e internet e ingestão de álcool e por último com o rendimento escolar.  Segundo o pesquisador, as cefaleias são os tipos de dores mais comuns entre a população. “Um estudo realizado em 2004 pelo grupo do professor Speciali, na população adulta de Ribeirão Preto apontou que 49,9% das pessoas têm cefaleias nesta cidade. Mas diferentes estudos em diferentes populações apresentam diferentes resultados nos índices de cefaleia”.

O estudo realizado por Grassi apresentou resultado semelhante a estudos feitos em Porto Alegre (RP) e São José do Rio Preto (SP). “Registramos que 72,82% dos participantes manifestaram ter cefaleias. O índice é maior entre as meninas, 79%, contra 62,5% nos meninos”. Ele enfatiza que a diferença é significativa e aponta que as meninas foram 2,3 vezes mais afetadas que os meninos. “Descrições na literatura apontam que a relação de prevalência entre meninas e meninos até os 7 anos é menor que 1 e passa para 1 entre os 7 e 11 anos e para 2,3 depois da puberdade. Isso se deve a influência hormonal. Os jovens participantes da minha pesquisa estavam nesse período de mudanças hormonais”, explica.

“A associação entre cefaleias e o uso de aparelhos ortodônticos foi significativa nesse estudo”, diz Grassi. Dos jovens pesquisados, 21,6% usavam o aparelho e 13,59% relataram cefaleia. Mais jovens com aparelho ortodôntico tinham cefaleia quando comparados com os participantes da pesquisa sem aparelho ortodôntico. Após analisar os dados Grassi concluiu que o início do tratamento com aparelhos poderia aumentar a incidência das dores locais pré-existentes ao tratamento e isso ter sido interpretado como cefaleia pelos participantes do estudo.

Bebida

Dos estudantes que declararam fazer uso de bebida alcoólica (21,8%), 83,3%, relataram dor de cabeça. “Há um risco estimado duas vezes maior para a presença de cafaleia dentre os que ingerem bebidas alcoólicas comparados com aqueles que não o fazem”, diz o pesquisador. E acrescenta que o álcool é conhecido como deflagrador das cefaleias e, o vinho tinto um dos mais citados desencadeadores das migrâneas, dores de cabeça.

Dos estudantes pesquisados, 22,33% se referiram a doença crônica, como rinite, sinusite e doenças respiratórias, por exemplo. Nessa associação o pesquisador não encontrou resultado significativo. “Desse total, renite e sinusite é que tiveram resultados mais altos, 14%”. Também não teve diferencial a cor da pele referida. Também o Índice de Massa Corpórea (IMC) não mostrou relação positiva com cefaleia um resultado diferente dos citados na literatura. “A obesidade é descrita pela literatura como um fator importante na relação com a cefaleia. Uma possível explicação para os resultados do estudo é poucos estudantes analisados eram obesos”, conta Grassi.

A pesquisa também avaliou a relação entre cefaleia e o uso de óculos e de tecnologias. Segundo o pesquisador é bem difundida a relação entre as dores de cabeça e alguns problemas de visão, como glaucoma agudo, erros de refração e estrabismos. “Esses dois últimos são frequentes na faixa etária participante da pesquisa, mas a literatura não indica se após correção da visão a cefaleia desaparece ou não. Nossa pesquisa sugere que após as devidas correções visuais a cefaleia desaparece”, relata.

Já o uso de óculos, em alguns raros casos, pode causar cefaleia por compressão das hastes nas regiões temporais diz Grassi, mas ela cessa após algumas horas sem o uso do aparelho. “Nesse estudo a relação não foi significativa. Do total que usa o aparelho, somente 7,77% relataram dor de cabeça”, afirma.  Já o uso de tecnologias, como o envolvimento com internet e videogame, por exemplo, também não tiveram resultados relevantes, tanto no grupo que faz uso deles durante 4 horas como naquele que declarou fazer uso durante 10 horas semanais. “Nem na literatura foi encontrada relação entre essas variáveis e a cefaleia”, explica Grassi.

Quando foi analisado o grupo que pratica exercício físico e o que não pratica, a diferença também foi insignificante, assim como a relação entre horas de sono e cefaleia. Tanto os que declararam dormir 6 horas, quanto aqueles que declararam dormir 10 horas não apresentaram diferença quanto a presença de cefaleia. “Vários trabalhos na literatura relacionam positivamente distúrbios de sono e cefaleia, entretanto nosso estudo inquiriu os estudantes sobre horas de sono e não distúrbio de sono. Essa situação indica que dormir menos ou mais desde que seja em quantidade necessária ou desejável não propicia aparecimento de cefaleias recorrentes”, conclui.  O autor sugere mais estudos que sigam o foco de sua investigação, uma vez que a presença de cefaleia nessa faixa etária é alta.

Mais informações: (16) 36363029; e-mail speciali@netsite.com.br, com o professor José Geraldo Speciali 

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