Uma biblioteca que brilha no coração da cidade e dos leitores há 90 anos

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Com o mesmo brio da São Paulo da década de 1920, a Biblioteca Mário de Andrade comemora 90 anos. Reúne um dos maiores acervos do País e está presente na história e na memória dos paulistanos. Para festejar, oferece uma programação com palestras, peças de teatro, exposições e lançamento de livros. E trava o seu maior desafio: o tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

Leila Kiyomura / Jornal da USP

Todo paulistano que se preza já parou para admirar o edifício imponente da Biblioteca Mário de Andrade, um dos marcos da arquitetura da cidade. E aqueles que tiveram os seus livros nas mãos e pesquisaram em seu acervo, considerado o segundo maior do País (o primeiro é o da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), têm muitas histórias para contar.

Sensações e lembranças de bons leitores como as do cineasta Ugo Giorgetti, autor e diretor de Boleiros – Era uma vez o futebol e O Príncipe, entre outros filmes que registram o cotidiano da cidade. “A Biblioteca Mário de Andrade sempre foi um importante ponto de referência”, observa. “Eu morava em Santana e atingir o Centro parecia uma aventura. Mas foi um espaço importante para mim e para todos os adolescentes da época. A diversão era entrar para pesquisar qualquer coisa que fosse.”

Foi no silêncio das salas e atravessando o edifício art déco que Ugo e outros ilustres cidadãos, como o poeta Roberto Piva, o compositor Jorge Mautner, a filósofa Marilena Chauí, o geógrafo Aziz Ab’Saber e o físico José Goldemberg deixaram se contaminar, como dizia o bibliófilo José Mindlin, pelo incurável vírus da leitura.

“A Mário foi para mim a descoberta do mundo da cultura”, diz Marilena Chauí, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Eu tinha 14 anos quando vim do interior de São Paulo para morar na Liberdade. Entrei no Colégio Roosevelt e passei a frequentar a grande biblioteca, a referência de um admirável mundo novo possível.”

Também o gaúcho de Santo Ângelo José Goldemberg, ex-reitor da USP e integrante da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Academia Paulista de Letras, considera-se um dos leitores assíduos do acervo. “Eu conheci a Mário de Andrade quando tinha 18 anos e vim para São Paulo com a minha família. Queria estudar na USP. Morávamos numa pensão nos arredores da avenida Paulista e lá não dava para estudar. Aí eu ia a pé até a biblioteca. Lá eu tinha sossego e silêncio para ler.”
Goldemberg deve à Mário de Andrade a sua boa formação autodidata em literatura brasileira. “Eu lia tudo, além dos livros de Física.” O professor não acredita que a biblioteca perdeu leitores para a internet. “Lá tem outras coisas a mais. Não é só uma fonte de informação.”

Outras coisas

portal20150417_3Certo é que o novo diretor, Luiz Bagolin, professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, vem travando o desafio para trazer os navegantes da internet para conhecer o acervo de mais de 3 milhões de títulos. “Eles estão se aproximando, sim, e a nossa estratégia foi liberar o wi-fi para todos os que estão trabalhando, estudando ou de passagem ao redor da biblioteca. Considero que todos são leitores em potencial.”

A Biblioteca Mário de Andrade tem um público diário de 1.200 pessoas. “A frequência dos leitores é a maior do País. Estudantes, professores e pesquisadores de todo o Brasil e do exterior procuram o nosso acervo”, destaca Bagolin. “Dispomos de uma das mais relevantes coleções públicas de periódicos da América Latina. Temos também um acervo representativo de arte, que foi criado pelo crítico e escritor Sérgio Milliet, diretor da biblioteca de 1943 a 1959.”

O acervo está em uma sala que tem o nome do seu criador. “Os artistas, arquitetos e designers continuam pesquisando a coleção, que tem 28 mil volumes e 10 mil periódicos, com obras de referência em artes em geral, arquitetura, urbanismo, gravura, design, decoração, fotografia, música, artes cênicas, pintura e escultura.” Bagolin lembra que foi a coleção que o ajudou na sua trajetória pela arte. “Eu sempre pesquisei o acervo, que tem uma coleção especial na área de gravura.” A sala Sérgio Milliet reúne obras consideradas marcos na historiografia da arte, como os livros Le Vite de’ più Eccellenti Pittori, Scultori e Architettori, de Giorgio Vasari, e os raros volumes da Philosophie de L’Art, do filósofo francês Hippolyte Taine.

São as metas de Mário de Andrade, patrono da biblioteca, e do crítico Sérgio Milliet que o professor Bagolin vem procurando resgatar ao firmar a sua integração no cotidiano da cidade. “Em 2013, recebi o convite do então secretário de Cultura, Juca Ferreira, para fazer o diagnóstico da situação da biblioteca, que passou por uma grande reforma em 2008”, conta. “Mas logo que entreguei o relatório com os planos de ações para reestruturá-la, fui surpreendido com o convite para ser o diretor. O primeiro desafio foi expandir a biblioteca até a periferia de São Paulo, valorizando os movimentos e a cultura dos bairros através de uma programação de música, cinema, teatro e exposições de arte.”

Através desta iniciativa, Bagolin apresenta o livro como o suporte de uma narrativa. “Assim, busco a visão prospectiva de Sérgio Milliet, mostrando as diversas formas de narrativas de um livro.” O professor considera que uma biblioteca não pode ser só depositária de um acervo. E busca a inclusão cultural, procurando incentivar a leitura em um sentido mais amplo.

Importante também é o processo de catalogação on-line de toda a coleção de obras raras. Quem está coordenando esse projeto é o bibliotecário Rizio Bruno Sant’Ana. “O acervo de obras raras tem mais de 50 mil volumes de livros, 20 mil volumes de periódicos e 10 mil documentos, incluindo manuscritos, alguns de fotografias originais, gravuras, desenhos, cartões-postais e moedas”, observa.

Sant’Ana é formado em Biblioteconomia pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e há 26 anos está na Mário de Andrade, à frente de projetos de conservação e digitalização do setor de obras raras. “Há livros de todas as áreas, especialmente de história e literatura, desde o século 16. Também destacam-se as obras que marcam a presença dos primeiros viajantes e dos primeiros missionários, como as de André Thévet, Jean de Léry e Manuel da Nóbrega.”
Entre as preciosidades estão nove exemplares de incunábulos, ou seja, livros impressos antes de 1500, e várias obras raras sobre o Brasil, algumas com poucos exemplares no mundo. Há ainda álbuns fotográficos originais dos séculos 19 e 20, como os de Marc Ferrez, Militão de Azevedo e Washington Luís.

Com uma equipe integrada por cinco especialistas, Sant’Ana iniciou o processo de catalogação no início do ano passado. Parte da coleção já está digitalizada e disponível no site da biblioteca podendo ser pesquisada neste endereço.

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Tombamento

Outro desafio do diretor Luiz Bagolin é o tombamento do prédio da Biblioteca, do acervo de obras raras e da praça Dom José Gaspar pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “O edifício é tombado pelo Conpresp e pelo Condephaat. Mas estamos nos mobilizando para conseguir o tombamento na esfera federal”, reivindica Bagolin. “Daí estarmos providenciando a digitalização do acervo de obras raras para reforçar a importância de sua preservação. O tombamento pelo Iphan vai garantir o direito à memória e contribuir com a responsabilidade na preservação do prédio e da praça.”

Localizado no coração da cidade, na rua da Consolação, 94, o prédio – hoje modernizado e restaurado – foi inaugurado em 1942, na gestão do prefeito Prestes Maia e do diretor da biblioteca Rubens Borba de Moraes. O projeto foi criado pelo arquiteto francês Jacques Pilon para abrigar a Biblioteca Municipal de São Paulo, fundada em 1925, que funcionava na rua 7 de Abril. O crescimento do acervo e dos serviços impulsionou a mudança para o novo edifício, que nasceu de um sonho de Mário de Andrade. “Nos anos 30, ele dirigiu o Departamento de Cultura da Municipalidade Paulistana, que se tornaria a atual Secretaria Municipal da Cultura. Naquela época, o escritor já defendia a ideia de uma biblioteca que abrigasse a história cultural da cidade e do Brasil e, especialmente, disponibilizasse as conquistas do Modernismo, tornando a cultura um bem comum.”

Bagolin explica que o nome de Mário de Andrade como patrono da biblioteca, em 1960, marca a sua contribuição à cultura brasileira. “A nova sede é um marco na vida cultural e na paisagem da cidade.” Diante de tantas histórias do acervo, dos leitores e da cidade que o prédio abriga, o diretor acredita no apoio do Iphan. “Nós já reunimos centenas de depoimentos reivindicando o tombamento. Afinal, a Mário de Andrade é um bem de todos os brasileiros.”

Um patrimônio da cidade

portal20150417_2Para comemorar os 90 anos de fundação da Biblioteca Mário de Andrade e reverenciar os 70 anos da morte de seu patrono, a cidade ganha uma programação cultural diversificada que traz, como bem define o diretor Luiz Bagolin, as diversas narrativas do livro.

“Estamos com uma programação intensa”, observa Tarcila Lucena, supervisora de Ação Cultural. “Seminários, palestras, shows, peças de teatro vão ser exibidos no decorrer de todo o ano, tendo como referência o pensamento multicultural de Mário de Andrade.”

Os eventos da programação de 90 anos da Biblioteca Mário de Andrade são gratuitos e estão sendo realizados no edifício da biblioteca, na rua da Consolação, 94, telefone (11) 3775-0002. Mais informações neste site.

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