Favelas cariocas passaram por reconstrução de imagem, mostra estudo

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Valérias Dias / Agência USP de Notícias

Ao longo das últimas décadas, as favelas do Rio de Janeiro apresentaram uma mudança na imagem como são vistas pelo poder público e a sociedade, como mostra estudo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Nesse processo de reconstrução de imagem, elas foram transformadas em locais que podem ser “consumidos” pela sociedade capitalista. O poder público, na impossibilidade de resolver o “problema urbano”, atuou na transformação da imagem das favelas na paisagem urbana. “A favela era vista como um problema e foi transformada em um produto cultural. E uma das formas de consumir esse produto pode ser verificado atualmente com o seu uso turístico e cultural”, analisa a autora do estudo, a arquiteta Izabel Cristina Reis Mendes.

Em sua tese de doutorado pela FAU, Izabel analisou programas de governo da esfera estadual e federal; documentos do Ministério do Turismo sobre atividades turísticas em áreas de favelas; ações de ONGs que procuram desenvolver produção cultural nesses locais; além de visitar pessoalmente algumas comunidades do Rio de Janeiro e fazer um levantamento dos museus, centros culturais e atividades de turismo de algumas favelas cariocas; e entrevistar moradores. A tese foi defendida em 2014. A pesquisa de campo — visitas em favelas e entrevistas — foi realizada entre 2012 e 2013.

“As favelas não apenas produzem cultura, como também são agora entendidas como um produto cultural”, aponta. Isso ocorre, por exemplo, quando elas são citadas no circuito turístico oficial, direcionado principalmente para turistas estrangeiros, que recomenda a visita tanto a pontos turísticos tradicionais como o Pão de Açúcar e o Corcovado, como também indica roteiros em favelas.

Roteiros turísticos e culturais

Foto: DivulgaçãoProduto cultural: agora as favelas são citadas em roteiros turísticos oficiais
Foto: Divulgação
Produto cultural: agora as favelas são citadas em roteiros turísticos oficiais

Sobre os roteiros turísticos nas favelas, a arquiteta aponta que grande parte deles está muito próximo daquilo que os turismólogos chamam de “turismo da pobreza” e a população local encara isso como algo negativo. Entretanto, a atividade turística, se explorada de outra forma, não é encarada como algo totalmente negativo por parte da população. “Eles não são contra a atividade turística em si, mas sim contra a forma como ela vem sendo executada”, pondera, lembrando que não é a totalidade dos moradores que apresentam essa opinião: há os que são totalmente contra.

Segundo a pesquisadora, foi na Rocinha, que fica entre o bairro de São Conrado e a Gávea, onde ocorreu o primeiro roteiro e o início da prática do turismo. Já o Morro Dona Marta, em Botafogo, foi o primeiro a ter roteiro de turismo oficializado pelo poder público, conta Izabel. Mas os benefícios não chegaram aos moradores. “A proposta inicial era a de que os guias seriam da comunidade e bancados pelo governo do estado, mas atualmente nem todos são. As oficinas para treinamento, vistas inicialmente como uma oportunidade de trabalho, não atenderam às expectativas. Alguns moradores relataram constrangimento com este roteiro, como se fizessem parte de um ‘zoológico humano’ criado para os visitantes”, relata.

Já a Rocinha tem todos os recursos de um bairro convencional: bancos, agência de turismo e diversos outros serviços. Há roteiros de turismo pela favela, operados por empresas externas com guias da comunidade.

O Morro do Cantagalo, em Ipanema, apresenta uma bela vista da orla: conta com elevador panorâmico e estação de metrô e um circuito de ruas e becos com grafites criado especialmente para o roteiro de turismo. No Complexo de favelas do Alemão, nos bairros da Penha, Olaria e Bonsucesso, onde foi instalado o teleférico, há vários roteiros com guias de turismo especializados: um deles é o “Roteiro do Príncipe”, em alusão à visita que o príncipe Harry, da realeza britânica, fez ao local em 2012. No bairro do Catete, Izabel foi até favela Tavares Bastos, onde há a casa noturna The Maze, local muito frequentado por turistas estrangeiros e onde “a língua predominante é o inglês”. Já na favela da Maré, há um centro cultural e um museu.

Outra vertente

Foto: DivulgaçãoNo Cantagalo, circuito de ruas e becos com grafites foi criado especialmente para o roteiro turístico
Foto: Divulgação
No Cantagalo, circuito de ruas e becos com grafites foi criado especialmente para o roteiro turístico

Izabel percebeu experiências menos danosas em favelas menores. Um morador recebe um hóspede em sua casa e passa alguns dias na favela para vivenciar o cotidiano local. “Há relatos de um turista que ajudou a moradora a construir uma horta orgânica. Houve uma troca. É uma experiência totalmente diferente do turista que sobe o morro apenas para tirar foto”, ressalta. Neste caso, o morador usava a própria casa como hostel, ganhando dinheiro com isso. Mas em parte dos casos, relata Izabel, as pousadas existentes nos morros não são de moradores das favelas, muitos vêm de fora, e quem fica com os ganhos são os que administram o lugar.

“O que está acontecendo é algo inédito na história das favelas cariocas, pois elas estão sendo enxergadas como parte da cidade. Apesar de todos os problemas, elas estão sendo integradas à estrutura urbana de outra forma, ainda que um dos instrumentos que permita isso — o consumo da favela por meio do turismo — seja questionável”, finaliza.

Imagens cedidas pela pesquisadora

Favelas cariocas passaram por reconstrução de imagem, mostra estudo
Editoria: Sociedade, USP Online Destaque - Autor: - Data: 21 de maio de 2015

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