Estudo da EACH mostra como investimento de empresas influencia sucesso em eleições

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Bruna Romão / Agência Universitária de Notícias (AUN)

O número de votos recebidos por candidatos às eleições é frequentemente e em grande dimensão influenciado por investimentos empresariais. Há, porém, outros fatores envolvidos nessa equação, como o gênero do candidato e candidaturas à reeleição, que não apenas têm efeito sobre a quantidade de votos dos concorrentes aos cargos políticos, como também definem como o dinheiro investido nas campanhas atuará sobre seu sucesso nas urnas. Estas constatações fazem parte de um estudo desenvolvido pelo professor Wagner Pralon Mancuso, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP,  em parceria com o professor Bruno Speck, do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Os recursos empresariais ocupam primeiro lugar entre as fontes de financiamento de campanhas eleitorais brasileiras. Em 2010, por exemplo, corresponderam a 74,4%, mais de R$ 2 bilhões, de todo o dinheiro aplicado nas eleições (dados do Tribunal Superior Eleitoral). “Pouquíssimos candidatos conseguem se eleger com pouco ou nenhum dinheiro”, comenta Mancuso, que coordenada o projeto de pesquisa Poder econômico na política: a influência de financiadores eleitorais sobre a atuação parlamentar, da EACH.

Os pesquisadores analisaram dados sobre as eleições de 2010 para deputado federal e estadual, buscando testar a associação entre o volume de votos recebido por candidatos e os fatores gênero, incumbency (candidatura à reeleição) e financiamento empresarial. O resultado completo da pesquisa será apresentado em outubro deste ano, durante o 36º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).

As comparações entre os diferentes pesos de cada fator relacionado ao êxito nas eleições, bem como das interações entre eles, são possíveis a partir do controle dessas variáveis. Assim, isolados os elementos de incumbency e gênero, foi observado que, a cada 1% da soma dos financiamentos arrecadados por todos os candidatos do estado, a chance de estar entre os mais votados para deputado federal é duplicada. No caso dos deputados estaduais, o efeito é ainda maior: as chances de sucesso aumentam 12 vezes.

Gênero e candidatura a reeleição

Ao se considerar a interação entre os fatores, todavia, o cenário torna-se mais complexo. Os candidatos concorrentes à reeleição (os incumbents) são aqueles a quem se dirige as maiores quantias de investimentos empresariais. Apesar disso, o dinheiro de campanha, surpreendentemente, não é o elemento que mais reforça as probabilidades de que esses políticos recebam mais votos que os demais. “A incumbency tem um impacto maior do que o financiamento”, explica Mancuso. “Isolando o efeito do financiamento, com o impacto da incumbency, candidatos a deputados federais tem 58 vezes mais chances de terem o número de votos maior do que não incumbents”, conta. Para deputados estaduais, a expectativa sobe 79 vezes.

Desta forma, o pesquisador relata que um mesmo valor de investimento beneficia em especial os candidatos desafiantes, devido à dificuldade que tipicamente enfrentam para entrar na carreira política, além da importância própria da incumbency. “O efeito do 1% a mais para o incumbent é apenas 60% do efeito para o desafiante”, diz. Isto, ele explica, chama-se “efeito Jacobson”, o qual foi apontado nos Estados Unidos pelo cientista Gary Jacobson, na década de 1980. O dinheiro investido permite que a divulgação do candidato seja melhor incrementada, com mais  publicidade, material de campanha e cabos eleitorais, por exemplo, dando-lhe mais visibilidade.

Já com relação ao gênero dos concorrentes ao pleito, as mais beneficiadas são as mulheres. “O dinheiro resulta em mais votos para a mulher porque ela tem mais dificuldade de entrar para a política, que é um ambiente de predominância masculina”, lembra o professor. Sem o financiamento e fatores de incumbency, a mulher tem apenas 39% da chance de um homem nas eleições para deputado federal. Na corrida para os cargos estaduais, a porcentagem, apesar de subir para 55%, continua aquém da probabilidade que um candidato do sexo masculino tem de estar entre os mais votados.

A partir destas observações pode-se deduzir um cenário geral da política brasileira. Os candidatos com maior probabilidade de receber mais votos são homens financiados na disputa por uma reeleição. Por consequência, tem maior dificuldade de estar entre os mais votados, as mulheres não financiadas e nãoincumbents.

Mais informações: (11) 3091-8152 / 7414-0379; email pralon@usp.br, com Wagner Pralon Mancuso

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