Para geógrafo, São Paulo precisa melhorar estrutura de eventos culturais

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Bruno Capelas / Agência USP

Pela enorme quantidade de peças de teatro, shows e exposições que sedia, a cidade de São Paulo é, com certeza, um dos polos culturais mais importantes do País. Entretanto, tal oferta não atende plenamente à toda a população da cidade. De acordo com o geógrafo Paulo Roberto Andrade de Moraes, autor de pesquisa sobre o assunto, a diversidade de atividades culturais não se distribuiu espacialmente de maneira igual por toda a cidade. “Há uma concentração de atrações nas zonas oeste, sudoeste e no centro da cidade, enquanto as outras regiões dependem principalmente da iniciativa governamental no que diz respeito a opções de entretenimento”, constata.

Moraes realizou o estudo A Espacialização dos Eventos Culturais na Cidade de São Paulo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Com base na pesquisa, o geógrafo enfatiza que não concorda com a visão comum de que a capital paulista tem plena capacidade de receber eventos. “São Paulo não tem uma estrutura satisfatória, mas tem muita demanda, o que explica a quantidade de atividades e os preços altos nos ingressos, por exemplo”. Para ele, é preciso se pensar em satisfazer condições de transporte, segurança, hospedagem, alimentação e um sistema bem definido de trânsito. “Pagar R$ 6,00 em um copo de água é quase um absurdo”, protesta. Ele ainda aponta que a prioridade da Prefeitura, ao pensar a cidade como espaço receptor de eventos culturais, deve ser no cidadão. “O segredo é fazer bem para o munícipe. Dessa maneira é que se cria o interesse de quem está de fora.”

Localização espacial

Como referência para seu trabalho, Moraes utilizou o guia semanal de eventos encartado no jornal O Estado de S.Paulo, publicado todas as sextas-feiras. O mapeamento ocorreu durante os anos de 2007 e 2008, contando todos os eventos culturais listados na publicação: shows musicais, peças de teatro, exposições e salas de cinema. “Procurei utilizar um guia que tivesse um nível satisfatório de atualização, apesar de reconhecer que ele não é 100% completo, pois é voltado para um público de classe média e alta (A e B) e porque a cidade é muito grande. Seria uma tarefa impossível mapear tudo que nela ocorre”, conta o especialista.

Na visão de Moraes, a iniciativa dos CEUs — mantidos pela Secretaria de Educação da Prefeitura de São Paulo — e da rede SESC – financiada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) – são responsáveis por boa parte dos eventos na periferia da cidade. “Eles são uma exceção ao oferecerem cultura de qualidade em locais onde o capitalista de cultura não tem interesse em chegar. Suas atrações têm apelo popular, como cantores de sucesso ou atores de novela, e preços acessíveis. Além disso, ambos dão a oportunidade de muita gente de conhecer outras manifestações culturais, como a música erudita.”

Shoppings e leis de incentivo

O estudo ainda aponta que, dentre as opções pesquisadas, o cinema é o mais “democrático”, devido a seu preço e a localização das salas dentro da cidade. “O cinema não é barato, mas é a atração mais acessível dentre as disponíveis. Além disso, ele está bem espalhado pela cidade, graças ao fenômeno dos multiplex, localizados todos em shopping centers, à exceção do cine Marabá, no centro da cidade.” Segundo Moraes, os teatros começam a seguir essa prática — “não se inauguram mais teatros de rua hoje” — e avalia essa mudança na dinâmica da cidade: “por um lado, é mais prático, porque há uma centralização dos serviços em um só lugar. Entretanto, perde-se a vivência entre as pessoas nas ruas. No lugar de combater a violência, o cidadão se segrega”.

Outra questão levantada pelo especialista é a das leis de incentivo à cultura. Em sua visão, elas precisam de uma reformulação. “As empresas investem em eventos que têm retorno garantido, procurando trazer lucro, maximizar sua marca e deduzir impostos. Assim, cantores consagrados fazem uso do incentivo, que deveria ser mais voltado a artistas que realmente precisam e a iniciativas que privilegiem a cultura nas periferias”, explica Moraes.

O estudo de Paulo Roberto Andrade de Moraes foi orientado pelo professor Eduardo Abdo Yázigi, dentro do programa de pós-graduação em Geografia Humana da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A defesa do trabalho, que foi a dissertação de Mestrado de Moraes, aconteceu em 28 de fevereiro de 2011.

Mais informações: email paulo.moraes@usp.br

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