Sistema wireless desenvolvido na FZEA mede bem-estar de frangos durante abate

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Antonio Carlos Quinto / Agência USP de Notícias

O Laboratório de Física Aplicada e Computacional (Lafac), da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga, desenvolveu uma metodologia usando um sistema wireless (rede sem fio) que possibilita aferir o estado cerebral — por meio do Eletroenceéfalograma (EEG) — de frangos de corte durante o processo de abate. O objetivo principal é estabelecer um procedimento de equivalência em relação às exigências da União Europeia (UE) de bem estar das aves durante o abate demonstrando, por intermédio do EEG, que o animal está inconsciente e não sofre durante o processo.

Nas indústrias que processam a carne de frango, o abate normalmente é feito após a eletronarcose (insensibilização usando corrente elétrica). O sistema provoca o atordoamento da ave antes da sangria, evitando seu sofrimento. “A eletronarcose usa uma corrente elétrica suficiente para insensibilizar a ave até o momento da sangria com menor impacto na qualidade da carcaça”, explica o professor Ernane José Xavier Costa, do Lafac. No entanto, a norma da União Europeia tem preconizado a eletrocussão, que provoca parada cardíaca nas aves, o que deve ser feito empregando-se uma corrente elétrica mais alta que a usual. “Segundo observações feitas por cientistas, tal procedimento causa danos nas carcaças, com consequente incremento de perdas na carne de peito”, conta Xavier.

Foi a partir desse impasse que o Lafac se uniu à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Suínos e Aves (com sede em Concórdia, Santa Catarina), e com a União Brasileira de Avicultura (Ubabef) para pesquisar parâmetros equivalentes a serem propostos à União Europeia, com respaldo em análises de EEG das aves. Segundo a coordenadora técnica da Ubabef, Sulivan Pereira Alves, as análises do EEG para verificar as condições de bem-estar das aves é um requisito da própria União Europeia”, lembra.

Prejuízos

Sulivan conta que, ao se adotar os parâmetros de corrente elétrica estabelecidos pela UE há perdas de qualidade na carne, principalmente na parte nobre (peito). “O incremento nas perdas de carne de peito é superior a 15%”, contabiliza. “Isso numa planta que abate cerca de 220 mil frangos por dia, pode significar algo em torno de 99 toneladas anuais de carne de frango que deixam de ser consumidas, o que equivale ao consumo de carne de frango de 220 brasileiros. Sulivan lembra que atualmente são 53 estabelecimentos habilitados para a UE, “então ao projetarmos essa perda para todos os estabelecimentos, o volume da carne perdida é um absurdo.”

As pesquisas visando estabelecer parâmetros equivalentes à UE foram realizadas numa fábrica da região sul do País. Enquanto a equipe do professor Xavier desenvolveu o sistema, os técnicos da Embrapa e da Ubabef avaliaram qualidade da carne e as respectivas perdas.

Com a metodologia do Lafac foi possível comprovar que a eletronarcose aplicada foi suficiente para provocar um estado de epilepsia nas aves antes do abate propriamente dito. “O sistema wireless remete as informações a um computador por meio de um software desenvolvido em nosso laboratório que usa técnicas avançadas de processamento digital de sinais”, descreve Xavier.

De acordo com dados da Ubabef, o Brasil é o terceiro maior produtor de frango do mundo, sendo o primeiro exportador da carne. Só em 2012, foram mais de 3 mil toneladas, sendo que 11% foram destinados à Europa.

Mais informações: (19) 3565-4177, email ernane@usp.br, com o professor Ernane Xavier, no Lafac

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