Seminário na ECA discute a juventude e o direito humano à Comunicação

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No dia 11 de julho, aconteceu no Departamento de Comunicações e Artes (CCA), da Escola de Comunicações e Artes (ECA), o Seminário Nacional Juventudes e Comunicação. Organizado pela Viração Educomunicação e pela Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores (Renajoc), o seminário integra a quarta edição do Encontro Nacional de Adolescentes e Jovens Comunicadores (Enajoc).

A ocasião teve como objetivo tratar sobre o direito humano à Comunicação, e discutir a inserção de adolescentes e jovens no contexto da produção midiática. O evento também integrou as comemorações dos 10 anos da Viração e teve o apoio do Núcleo de Comunicação e Educação (NCE) da USP, do Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Comunicação é um direito humano

Com uma mesa-redonda nomeada “Comunicação e cidadania para garantir os direitos de crianças, adolescentes e jovens”, teve início o evento. Paulo Lima, mediador da mesa e um dos fundadores da Viração, abriu a discussão afirmando que “se não existir participação direta de adolescentes, jovens e crianças, não são, de fato, nem Comunicação, nem Cidadania”. Para Lima, a garantia da Comunicação como direito humano deve envolver a participação dos jovens, pois, assim como qualquer outro grupo social, os jovens, adolescentes e crianças também estão inseridos no debate público, devendo serem ouvidos e compreendidos.

De acordo com Amanda Rahra, diretora da ÉNóis – Agência Escola de Conteúdo Jovem, “o direito à Comunicação é o direito de cada um colocar para fora o seu olhar. De mostrar para os outros o que pensa e qual a reflexão que possui. O mundo não é mais um ou dois falando para todo mundo, o mundo agora é todo mundo falando com todo mundo”. Conforme a diretora, o jovem tem que saber se colocar, saber o que quer e de onde veio, justamente para poder dialogar com eficiência.

Para que isso seja atingido, considera-se fundamental que os jovens saibam se comunicar e entendam os processos comunicacionais dos dias de hoje. E são essas as ações, idealizadas pelo campo da Educomunicação, que estão sendo trabalhadas dentro da Universidade. A USP possui tanto um curso de Licenciatura e quanto um de Especialização lato sensu em Educomunicação, ambos oferecidos pela ECA.Para o coordenador do curso de Licenciatura em Educomunicação e integrante do NCE, o professor Ismar de Oliveira Soares, “a Universidade ouve a sociedade e oferece sua contribuição, que é a Pesquisa”. Desde o ano 2000, foram produzidas 97 teses sobre Educomunicação no Brasil, sendo 47 dessas da USP.

Sobre a ideologia atual dos cursos de Comunicação, o professor pontua que “os cursos de Comunicação estão a serviço do grande mercado. Enquanto que a Educomunicação está a serviço da sociedade, naquilo que ela está exigindo hoje: que é o direito de expressão de crianças e adolescentes”. Nesse contexto, acredita-se que, além da Comunicação como direito humano, o jovem também deve ter o direito de saber se comunicar bem, e isso significa ter a Educação aliada à Comunicação.

Como exemplo de projetos que procuram desenvolver essas capacidades nos jovens, Daniela Majori, especialista em Educomunicação pela ECA, buscou avaliar em seu trabalho de conclusão de curso como se dão as mudanças no jovem que é inserido nesse contexto educacional. Para isso, a especialista realizou um trabalho com os integrantes da Agência Jovem de Notícias, entidade ligada à Viração.

Orientada pelas conclusões de seus estudos, Majori afirma que “quando tornamos o jovem o ator principal de uma ação, ele desenvolve sua própria visão crítica. Ele não é mais apenas um receptor, ele agora está no lugar do produtor. De modo que o jovem compreende o seu papel dentro desse cenário”. Além da formação de uma consciência crítica, a pesquisadora também relatou que os jovens envolvidos no projeto apresentaram um aumento significativo de seus repertórios pessoais – tanto na variedade de temas, quanto nas diferentes abordagens que um mesmo tema pode obter – e que preconceitos que existiam sobre alguns assuntos taxados como complexos demais – por exemplo, a Política – foram desconstruídos.

Um ato político-pedagógico

Relembrando o momento de grande efervescência política em que o país se encontra, Paulo Lima definiu o seminário como “um ato político-pedagógico”, ampliando o momento de reflexão teórica para uma reflexão mais prática sobre o assunto.

O seminário evidenciou ainda que o ensino aos jovens dos processos da Comunicação e a reivindicação pelo direito à expressão devem ser realizados em conjunto, integrando uma luta social pela garantia da cidadania e dos direitos humanos. Como porta-voz dos jovens inseridos nessa luta social pela direito à Comunicação, o evento contou com a presença da jornalista Gizele Martins, do Jornal O Cidadão – jornal que circula no conjunto de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, há 14 anos.

Para Gizele, o jornal “defende a identidade favelada, a cidadania e os direitos básicos que cada cidadão deve – ou deveria – ter”. A jornalista completou o debate com diversas críticas ao monopólio da comunicação no Brasil e à cobertura dos grandes meios de comunicação, especificamente quando o tema são as favelas. Na opinião da especialista, o termo “favela” não pode ser abandonado, já que ele, em sua origem, “é sinônimo de resistência”.

Ao final da discussão, a jornalista, ao tratar da comunicação alternativa como uma das principais formas de prática da Educomunicação, declarou que “é a comunicação alternativa que consegue provar aquilo que nós somos – já que não temos espaço nem nos grandes meios de comunicação. É na comunicação comunitária, alternativa e popular que conseguimos defender o direito básico de cada cidadão, que conseguimos colocar a nossa dor, a nossa alegria, e defender aquilo que nós somos: Seres humanos com cultura”.

Mais informações: (11) 3091-4784, site www.usp.br/nce

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