Instituto da USP dedica-se ao ensino e pesquisa das doenças tropicais

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Dengue, doença de Chagas, malária e leishmaniose são moléstias bastante conhecidas pelos brasileiros. Elas estão entre as chamadas doenças tropicais, que têm em comum não apenas o fato de ocorrerem em regiões tropicais e subtropicais, mas de surgirem, frequentemente, em condições de pobreza – por isso conhecidas também como doenças negligenciadas. São elas o foco das atividades desenvolvidas no Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (IMTSP) da USP. Sua fundação, em 1958, reflete o impacto dessas doenças em todo o mundo. “Elas debilitam e minam populações, apresentam números alarmantes e contribuíram para a retirada precoce de milhares de pessoas de áreas produtivas, além de mortes prematuras”, conta o professor Paulo Cotrim, diretor do IMTSP e professor da Faculdade de Medicina (FMUSP) da USP.

O cientista relata que a pesquisa produzida no Instituto e a aplicação deste conhecimento em políticas de saúde pública vêm contribuindo intensamente para a mudança desse quadro nos últimos 50 anos. O bom desempenho é resultado da atuação ampla do IMTSP, que além de projetos de pesquisa próprios, está em contato constante com a produção dos laboratórios de pesquisa básica da Universidade e participa ativamente do processo de aplicação prática dos conhecimentos produzidos. “Em outras palavras, o IMTSP consegue se comunicar tanto com os pesquisadores da área básica como com os médicos que atuam nos hospitais. O resultado dessa interação normalmente é voltado para o bem-estar da sociedade”, explica Cotrim. “A agilidade da informação e interação com pesquisadores de renome, nacional ou internacionalmente, faz com que os laboratórios do IMTSP tenham sempre uma resposta rápida para os problemas que surgem”, completa.

O IMTSP consegue se comunicar tanto com os pesquisadores da área básica como com os médicos que atuam nos hospitais.

Entre os estudos que já aconteceram no Instituto de Medicina Tropical está o desenvolvimento de um teste confirmatório para a doença de Chagas. A pesquisa propôs uma nova forma de diagnosticar o mal de Chagas, chamada TESA Blot, que mostrou desempenho semelhante ou superior em comparação a outros métodos em diversos experimentos. Recentemente, o Instituto participou também de uma pesquisa que observou que a variabilidade genética do vírus da dengue é menor do que o esperado, fato que aumenta as chances de se encontrar uma vacina contra a doença. Paulo Cotrim menciona ainda diversos outros trabalhos, mas diz ser até mesmo injusto enumerá-los, por deixar de fora uma série de pesquisas e inquéritos realizados que tiveram grande impacto na área da saúde.

Autonomia

O IMTSP esteve ligado à FMUSP até 2000, quando se tornou uma unidade autônoma.  Segundo o ex-diretor do IMTSP, Antônio Walter Ferreira, essa transformação veio da  necessidade de manter a instituição ainda mais atuante e na linha de frente da pesquisa e  ensino das doenças tropicais. A importância de se manter profissionais dedicados ao tema  evidencia-se pelo aumento da incidência, causado pela facilidade de comunicação e  locomoção das pessoas em todo o mundo, e também por sua expansão em países  industrializados, tornando-se assunto estratégico na discussão sobre saúde pública.

A emancipação permitiu a criação de um  programa de pós-graduação próprio na área de  doenças tropicais e saúde internacional. As atividades de ensino do IMTSP incluem ainda a  graduação, como é o caso da disciplina “Saúde em Viagens”, ministrada no curso de Turismo, entre outras oferecidas no curso de Medicina, além de cursos de de extensão oferecidos à comunidade, como é o caso do Saúde dos viajantes, curso gratuito voltado para a terceira idade e que está com inscrições abertas. O relacionamento com a Faculdade de Medicina, no entanto, permanece de maneira positiva. A sede abriga dez laboratórios de investigação médica da FMUSP e mantém contato intenso com seus pesquisadores e docentes.

Próximos passos

Segundo o atual diretor do Instituto, cerca de 450 pessoas, entre funcionários, alunos, bolsistas, estagiários, técnicos, sejam eles da FMUSP, do Hospital das Clínicas, das fundações, da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN) da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, entre outras, circulam por dia no IMTSP. Paulo Cotrim lamenta, porém, que o IMTSP tenha, hoje, apenas três docentes próprios e técnicos de nível superior. “O IMTSP precisa urgentemente de novas vagas de docentes, que já foram solicitados, e de pesquisadores. Para os institutos especializados, a figura do pesquisador é importante e deve ser seriamente considerada”, defende.

Em relação à infraestrutura física, está prevista a construção de um novo edifício, que abrigará o Centro de Pesquisa em Doenças Tropicais Negligenciadas. Além de novos anfiteatros, o prédio terá quatro andares dedicados exclusivamente a novos laboratórios multiusuários. Neles se pretende estruturar atividades e plataformas tecnológicas para a pesquisa, desenvolvimento e inovação de insumos para o diagnóstico, prevenção, controle e tratamento das doenças tropicais e negligenciadas, conforme adianta o pesquisador.

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